CCJ: Uma tarde difícil para o soldado Guedes

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Ontem o ministro da economia, ou super-ministro, Paulo Guedes teve uma tarde difícil. O fiador do programa econômico de Jair Bolsonaro encarou uma longa e difícil cessão na CCJ, a comissão de constituição e justiça da câmara dos deputados, onde será julgada a constitucionalidade da reforma da previdência. O ministro, o principal proponente da reforma, foi até a comissão vender seu peixe e responder os questionamentos dos parlamentares.

Guedes tinha uma missão que era explicar a importância da reforma. Ela foi cumprida, apesar do tumulto infinito.

A seção durou mais de 6 horas e não foi nada fácil para o ministro, que sofreu ataques sucessivos. Em alguns momentos parecia que ele estava em um grande corredor polonês: pancada de todos os lados. Inclusive, para o expectador, dava a sensação de que havia apenas deputados de oposição presentes na seção, dada a organização da oposição em fazer perguntas em blocos sucessivos, dando a (falsa) impressão de que todos os presentes na comissão eram contra a reforma.

Na CCJ, o governo tem algo ao redor de 41 votos em um universo de 66. Para aprovar a reforma é preciso 34 votos, maioria simples. Porém, a oposição se mostrou gigante, uma espécie de rato que soava como um leão. Inclusive conseguiram tirar o ministro do sério em alguns momentos. A seção precisou ser encerrada exatamente por que o ministro ficou exaltado demais com o comentário do deputado Dirceu do PT do Paraná, o nome nao é coincidência, o mesmo é filho do ex-ministro José Dirceu.

Os fatos ocorridos no dia de ontem estavam dentro do esperado, ataques ao projeto, ao ministro e ao presidente, já estavam no preço (como o mercado gosta de se referir a fatos certos). Porém, a surpresa negativa foi a falta de defesa enfática daqueles que apoiam o projeto. Se o grupo do governo tivesse feito metade do barulho que a oposição fez, a coisa poderia ter sido diferente para a imagem da reforma.

Essa falta de defesa suscita 3 pontos: (1) o governo ainda não articulou a base. Falta muita graxa para essa máquina funcionar melhor e gerar os incentivos corretos para que os deputados governistas sejam mais combativos em apoiar o projeto; (2) Ainda existem dúvidas, inclusive técnicas, por parte dos deputados, que precisam serem sanadas e explicadas, de forma que os mesmos tenham munição para defender o projeto; e (3) a classe política, mesma aquela ligada ao governo, ainda não tomou dimensão da importância da reforma, que não pode ser vista como opcional, e sim como obrigatória, para que o equilíbrio fiscal de longo prazo seja reconquistado, essa uma condição necessária para que o país volte a crescer gerando renda e emprego.

A tarde de ontem foi um aviso e também uma amostra do que virá pela frente. As 6 horas de Guedes na CCJ serão 6 meses nas duas casas legislativas (acreditamos que a reforma será aprovada em meados de setembro/outubro), onde o tiroteio ficará mais intenso. Logo, o governo precisa aglutinar melhor a tropa e mostrar união ao redor de Paulo Guedes.

Um governo formado por tantos militares deveria saber que não se ganha a guerra com apenas um soldado. Uma hora o soldado ou morre ou desiste.

 

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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