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Buffett e a lição dos US$128 bilhões

O mês de outubro terminou em alta para as bolsas internacionais. O dólar segue relativamente forte ao redor do mundo, embora a queda das taxas de juros nos EUA venha colocando uma “pausa” à valorização observada desde o início de 2018. Nos últimos dias, notícias mais animadoras em relação à economia dos EUA e à relação EUA-China animaram os investidores. Em meio ao otimismo de alguns, o famoso investidor Warren Buffett, por exemplo, parece ver poucas oportunidades boas para investir. E isto não é de hoje. Num cenário internacional cheio de eventos difíceis de interpretar, o que podemos dizer sobre os movimentos recentes dos mercados? O que isto tem a ver com as decisões de Warren Buffett?

A Berkshire Hathaway, comandada por Buffett, reportou neste final de semana, além de um crescimento do lucro operacional, um significativo aumento do caixa. Numa trajetória de alta há algum tempo, chegou ao recorde de US$128 bilhões. Buffett completa quase 4 anos sem uma grande operação — algo que chama a atenção daqueles que acompanham os seus passos com admiração e atenção. Qual o motivo para isto? Há quem diga que isto pode estar relacionado à idade avançada de Buffet (89) e Charlie Munger (95), o vice-chairman da Berkshire. Ou, também, à preocupação com uma possível virada nos mercados, semelhante ao crash de 1987, que tanto Buffett como Munger poderiam ter. Será?

O motivo mais razoável, no entanto, reside na dificuldade de encontrar boas oportunidades no contexto atual. Simples assim. Em especial, parece ser um momento especialmente difícil para aqueles investidores de longo prazo. A queda dos juros e o excesso de liquidez decorrente destas políticas dos bancos centrais, nos últimos anos, pode ter levado muitos ativos a níveis “caros” e difíceis de justificar. Não é por acaso que muitos economistas estão preocupados com os efeitos colaterais e não-óbvios que as políticas que vieram “ajudar” poderiam ter em horizontes mais longos. O FMI, há algumas semanas, fez alertas sobre a estabilidade financeira global, ressaltando, com especial atenção, aos riscos vindos dos EUA. Ou seja: não é porque os juros estão mais baixos que você, como investidor, deve topar correr riscos desnecessários. Aliás, riscos maiores não necessariamente nos levam para uma situação de retornos maiores, como comentei num texto recente. Buffett, como podemos ver, mostra-se cauteloso.

Ainda assim, e apesar de receios com relação à estabilidade financeira e à desaceleração econômica, alguns números da economia dos EUA seguem fortes e têm animado aos investidores nos últimos dias. Os índices S&P 500 e Nasdaq, por exemplo, fecharam a última sexta-feira (1) em recordes de alta, após dados do mercado de trabalho mostrarem uma criação de empregos acima das projeções em outubro. Donald Trump foi logo comemorar no Twitter: “Isto é muito acima das expectativas. USA ROCKS”. É, de fato, um contrapeso aos números fracos que o setor industrial tem mostrado no período recente, por exemplo. Em semana que contou com a terceira redução de juros do FED em 2019 e otimismo com relação à melhora da relação comercial entre EUA e China, o mercado acionário registrou a sua quarta semana consecutiva de ganhos.

cenário internacional confuso, ao que me referia num texto do final de setembro, continua difícil de ser analisado. Como termômetro, vale analisar o comportamento dos mercados. De lá pra cá, o dólar recuou aproximadamente 1%, mas continua em níveis altos. Do começo de 2018 até aqui, já se valorizou 10%. O índice S&P 500, por outro lado, subiu 2.5% em pouco mais de 1 mês. Só em 2019, já sobe ao redor de 22%. Embora o viés expansionista do FED dificulte valorizações da moeda nos próximos meses, há quem aposte, ainda, em novas altas das bolsas nos EUA. Mas vale questionar esta análise. A verdade é que se o prazo de investimento é mais longo, como no caso de Buffet e Munger, parece difícil concordar com esta opinião. O caixa de US$128 bilhões pode ser encarado como uma lição.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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