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A trajetória do Brexit é cheia de idas e vindas, mas pode ser definida por alguns pontos altos. Referendo em junho de 2016 mostra a aprovação popular a esse movimento, então cai o primeiro-ministro David Cameron, conciliador que afirmou que o faria caso a resposta do povo fosse pela saída do Reino Unido. Entra Theresa May, obstinada com a questão – e sai três anos depois em discurso emocionado após não conseguir. A vez atual é de Boris Johnson, que também bastante focado na questão, conseguiu finalmente um acordo com a União Europeia.

Desde julho de 2016 até os dias atuais, a vontade popular expressada no plebiscito segue em suspensão. O desejo do Reino Unido de deixar a União Europeia reflete um mundo em que o pêndulo histórico está mais direcionado ao nacionalismo do que à globalização – possivelmente é o momento mais avesso a integração entre países desde 1989 com a queda do muro de Berlim.

O que se tem a apresentar em relação ao acordo de Boris e Juncker é que ele colocará Reino Unido e União Europeia em um período de transição em que as regras ainda valerão e que, logo após ele, o primeiro grupo poderá partir para acordos comerciais com outras nações. O que parece simples, no fundo envolve diversos acordos que ainda precisam ser feitos em um espaço curto de tempo.

O acordo recentemente alcançado tem um grande pró e um grande contra. Sua maior vantagem é ser, segundo as duas partes, positivo: foi chamado de “ótimo novo acordo” por Johnson e “justo e equilibrado” por Jean-Claude Juncker, presidente da Comissão Europeia. No lado vazio do copo: ainda há a necessidade de aprovação pelos dois parlamentos e o prazo para isso, caso não venha a ser prorrogado, é o dia 31 de outubro deste ano (dez dias após a publicação deste texto).

Você que acompanha esta história quase sem fim deve ter pensado ao ler o parágrafo anterior que “não é possível que exista apenas esse ponto contrário”. E você está certo: outros dois complicados pontos são o chamado backstop da Irlanda do Norte e o possível “referendo confirmatório” que pode ser apoiado pelo Partido Trabalhista.

Sobre o primeiro ponto, o chamado backstop é uma legislação negociada por Theresa May que evita conflitos futuros e funciona da seguinte maneira: a Irlanda, diferentemente da Irlanda do Norte, não é considerada parte do Reino Unido apesar de fazer parte da União Europeia e, caso o Brexit se concretize, ela ficará de certa maneira isolada e terá barreiras físicas (comerciais e de movimentação) em suas divisas. A ideia desse backstop é impedir que essa barreira física entre as duas Irlandas ocorra – dado o histórico de divisão entre as duas e o conflito possível que isso poderia reacender.

Já o segundo ponto é mais sutil, mas, em se tratando dessa questão já em aberto desde o meio de 2016, não dá para ser descartado: o Partido Trabalhista tem ouvido eleitores sobre a necessidade de um segundo referendo, a fim de confirmar uma vez mais a vontade do povo do Reino Unido sobre a saída da União Europeia. Não é difícil imaginar que o imbróglio seria ampliado caso essa ideia passe a ser uma realidade – talvez não um “recomeçar do processo”, mas, certamente, mais um adiamento de decisão.

Como já comentamos, ainda que não venha a acontecer, o Brexit já mostra como situações complexas em termos de relações comerciais e migrações serão tratadas pelo mundo daqui em diante. A integração sonhada nos anos 1990 parece estar se dissipando em meio a interesses nacionalistas. O “vamos nos conectar uns com os outros” tem começado a perder espaço para o “precisamos defender os interesses dos que fazem suas vidas em nossa região”. Não se tratam de interesses ilegítimos – até porque são desejos confirmados em pleitos ao redor do globo -, mas certamente vão mudar a cara do mundo como o conhecemos.

A recomendação tanto da União Europeia quanto do Reino Unido é de que os parlamentares das duas partes aprovem o acordo alcançado. E, considerando o cenário nebuloso, desconhecido e arriscado de um Brexit sem acordo, é salutar que as partes se entendam mesmo, a fim de evitar o prolongamento dessa cicatriz que, cá pra nós, não voltará ao estado anterior mesmo que se desista de vez do processo todo.

Mas não se engane: tal qual todo o imbróglio observado até agora, não teremos uma saída que envolva menos do que um complexo jogo de xadrez. Enxadristas diferentes já estão jogando há mais de três anos. Seria agora o momento de finalmente declarar que o jogo está próximo do fim?

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