Brasil: O país que não cresce

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O Brasil caminha a passos largos para o seu terceiro ano de crescimento pífio. Não estamos mais em uma crise, mas sim no momento seguinte a ela. Porém, a atividade econômica continua bastante sequelada pela crise e custa a demonstrar força. Além do fraco crescimento, o Brasil tem ainda um problema crônico: somos um país que cresce pouco desde os anos 90.

Vamos começar vendo o curto prazo: entre 2015 e 2016 a economia encolheu quase 7% no acumulado, a pior crise da nossa história. Porém, mesmo com a crise superada em 2017, o país não consegue crescer acima de 1,5% ao ano. Em 2017, primeiro ano de expansão positiva pós crise, tivemos um crescimento de 1,06%. Em 2018, um ano onde todos esperavam até mesmo uma melhora mais robusta, o país só conseguiu crescer 1,12%, praticamente a mesma velocidade de 2018.

2017 e 2018 foram anos atípicos. O primeiro pelo simples fato de ser o primeiro após uma forte recessão e existia pouco espaço para uma expansão robusta. Já 2018 sofreu com forte volatilidade externa e interna. Lá fora os mercados, principalmente o europeu, teve um ano bastante negativo, enquanto emergentes como Argentina e Turquia contaminaram a cena emergente. Aqui dentro as eleições foram o grande gerador de volatilidade, além da greve dos caminheiros que erodiu todas as expectativas de crescimento.

2019 já era para ser um ano diferente, com um novo governo eleito e relativamente comprometido com as reformas, principalmente aquelas de cunho fiscal (principalmente a da previdência). Porém, o novo governo ainda precisa aprender a lidar com o ambiente político e com isso as reformas têm sofrido certa abrasão no congresso, o que aumenta a incerteza dos agentes econômicos, levando empresas, famílias e investidores a esperarem o desenrolar das reformas para consumir e investir. Logo, o PIB sofre e isso fica claro com os números de serviços, comércio e indústria dos 2 e 3 primeiros meses do ano, onde mostra que a economia tem perdido fôlego.

Com tais números em mãos conseguimos projetar o PIB para o primeiro trimestre de 2019, que será divulgado nas próximas semanas. Esperamos uma queda de -0,29%, enquanto para a taxa anual (4 trimestres anteriores, contra os 4 trimestres do ano anterior) a economia vai voltar a crescer abaixo de 1%. Isto é, estamos perdendo a força para retomar o ciclo econômico, como o gráfico abaixo deixa claro:

Além dos problemas de curto prazo, a economia está perdendo a velocidade de médio prazo. Desde 1980 não conseguimos ter um crescimento médio na década acima da 4%. Para 2020 esperamos que a economia avance ao redor de 2,5%, porém isso não será suficiente para salvar a década, que terá a menor taxa de crescimento desde 1960 e talvez uma das menores da história do país. Vamos ter gasto 10 anos para ter crescido na média 1,44% por ano. Nos anos 80, quando a economia passou por uma profunda crise, além da moratória da dívida externa, a taxa média foi de 3%.2010-2020 será uma década perdida, como mostra o próximo gráfico.

Sem as reformas corremos o risco de ser sempre o país que cresce pouco, quando cresce. É bastante nítido que estamos perdendo a potência para sustentar crescimentos mais robustos.

Caso o país não volte a engrenar, teremos que lidar com um desemprego alto de forma perene, baixa taxa de crescimento do consumo e até mesmo o risco de eleger um governo populista e completamente irresponsável do ponto de vista econômico, basicamente a solução que a Argentina tem feito desde os anos 1980.

 

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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