Brasil: o país que insiste em ficar na série B

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 Mais uma vez o Brasil teve a sua nota de bom pagador rebaixada pela principal agência de rating(que são especializadas em analisarem a qualidade das dívidas de empresas e governos) a S&P – Stand and Poor’s. Esse rebaixamento não foi o primeiro e nem seja o último destes conturbados tempo da economia brasileira.

Porém, antes de continuar, precisamos voltar quase 10 anos no tempo, para 2008, neste ano o Brasil subiu pela primeira vez a “série A” dos ratings, nossa dívida pública ganhou o selo de investment grade, o que em bom português significa: pode investir que o risco de calote é baixíssimo.

Tal selo abriu as portas do mercado de capitais brasileiro para vários grandes investidores internacionais, que na maioria das vezes só podem investir em países que possuem o selo de investment grade.

Poucos meses depois eclodiu a crise financeira de 2008, o Lehman Brothers faliu monumentalmente e trouxe consigo toda a economia americana.

Mas rapidamente o Brasil saiu da crise e voltou a atrair investidores internacionais, tudo graças a robustez que a economia brasileira adquiriu com muita responsabilidade fiscal, o país vinha registrando bons superavit primários por uma longa sequência de anos. Havia espaço para o governo fazer as famosas medidas anti-cíclicas, como os economistas gostam de chamar, que nada mais são que a queda dos juros, liberação de crédito público e corte de impostos.

Tudo foi feito e garantimos que a crise não atrapalhasse a lua de mel da economia brasileira. Tanto que após uma leve recessão em 2009 o país cresceu incríveis 7,5% em 2010. Números vistos apenas na década de 1970, quando passávamos pelo chamado Milagre Econômico.

Porém, o novo governo que assumiu em 2011, ficou entorpecido pelas medidas tomadas anos atrás e continuou a aplicar o remédio anticíclico mesmo após todos os sintomas da crise já não sendo presentes mais. Como um viciado em morfina que continua seu uso após a dor já ter cessado.

O governo passou a sobreaquecer a economia, juros foram baixados na marra, o crédito aumentou pois o governo obrigou os bancos públicos a emprestarem a taxas mais baixas que os seus pares privados e por último e a mais grave das decisões, foi de cortar impostos de diversos setores enquanto o governo continuava a aumentar seu gasto. Sem falar do aumento de capital de mais de 200 bilhões no BNDES.

Resultado? O país não cresceu, muito pelo contrário. Não foi construída uma base para que o crescimento fosse sustentado, o capital humano brasileiro é de péssima qualidade e a infraestrutura também, e todas essas medidas tomadas pelo governo foram inócuas sobre a produtividade da economia, que é o fator primordial para o crescimento econômico sustentável.

Gastou se uma quantidade enorme de recursos, em sua maioria públicos, para que o resultado fosse a maior crise da história do país.

Como o governo gastou muito e ainda por cima diminuiu sua arrecadação reduzindo impostos, o resultado foi o descalabro fiscal que se iniciou em 2014, após mais de uma década praticamente ininterrupta de superávit fiscais, o país começou a fechar as contas sistematicamente no vermelho.

Conclusão? Em 2015 fomos rebaixados, assim como um time não preparado para os desafios da Série A, que sobrevive alguns anos e por fim acaba rebaixado. Perdemos então o investment grade.

Basicamente o superávit primário é quanto o governo economiza todo ano, e a simples diferença entre receitas e despesas. Esse saldo positivo que vinha sendo acumulado era utilizado para abater a dívida pública. Quando a dinâmica se torna contraria, o déficit primário é compensado com o aumento da dívida. Se a dívida cresce sem muito controle, logo a sua sustentabilidade e sua capacidade de pagamento começam a serem questionadas.

O Brasil deve ter déficits fiscais até pelo menos 2021, segundo projeções da instituição fiscal independente, então até lá não haverá abatimentos na dívida pública. O problema fiscal ainda está longe de ser equalizado, o governo ainda gasta mais do que arrecada, e já não tem de onde cortar mais. Reformas como a da previdência precisam ser aprovadas urgentemente para um início de uma equalização do problema fiscal no longo prazo.

Mas a classe política ainda não está no compasso de urgência, a reforma da previdência já foi adiada duas vezes em menos de 1 ano. É exatamente por causa dessa complacência que a S&P decidiu nos rebaixar mais uma vez. Uma espécie de aviso sobre o futuro sombrio que nos aguarda.

Estamos agora a duas “subidas” de rating do investment grade. Distância que pode se tornar cada vez maior caso o país não tome um rumo fiscal responsável com urgência. Já se vê claramente reflexos da falência do Estado, como no Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande do Norte, que precisam parcelar salários de servidores, fechamento forçado de universidades e hospitais, um verdadeiro caos vem se instalando.

A classe política deve se mobilizar, que esse novo rebaixamento sirva como um apito de um juiz preocupado com a qualidade do jogo demonstrado pelo time. Caso a estratégia não mude, seremos eternamente um país série B.

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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