Brasil: o país onde o exemplo não vem de cima!

“Em um momento extraordinário como esses, o setor público vai ser mais racional, não tem outro jeito”, dizem alguns. Mas, em plena pandemia, casos e mais casos de descaso com o dinheiro público aparecem na mídia.

O Tribunal de Justiça de Goiás, por exemplo, criou um auxílio-saúde para todos os servidores, com reembolsos médicos que chegam até R$ 1.200. Estados como o de Mato Grosso e Paraíba aprovaram reajustes e gratificações para os seus servidores públicos nos últimos meses. A Câmara Legislativa do Distrito Federal aprovou um projeto de resolução que inclui ex-deputados distritais e seus dependentes no plano de saúde da Casa de forma vitalícia, com parte do custo mensal sendo financiado a partir de recursos públicos.

Todas essas medidas, que aumentam o gasto público, foram tomadas – acreditem! – neste momento ímpar de crise sanitária e econômica no país.

Por outro lado, o setor privado sente os efeitos mais perversos da crise que se avizinha. A taxa de desemprego aumentou de forma significativa na nova medição em abril, com uma perda estimada de 1 milhão de empregos só em 2020. As expectativas, tanto de produtores e de consumidores foram para o pior nível em anos. Quase 40% dos brasileiros perderam totalmente ou parte significativa da renda durante a pandemia. Além disso, 77% dos que estão no mercado de trabalho têm medo de perder o emprego.

Mesmo assim, se olharmos pelo lado do “copo meio cheio”, o setor privado tem dado um show nesse momento de dificuldades: as doações de empresas e indivíduos já ultrapassam os R$ 5 bilhões, contando com a participação de diversos segmentos (setor financeiro, alimentação e bebidas, mineração e iniciativas de pessoas físicas e organizações).

Mas a grande verdade é que quando olhamos a experiência internacional, fica muito claro como a elite do funcionalismo público no Brasil está deixando a desejar em contribuir com a sua parte nessa crise. A Primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern, e outros ministros de seu gabinete decidiram adotar um corte de 20% em seus próprios salários durante o período mais crítico da pandemia. A medida foi seguida por outros países, como Uruguai, Equador e Cingapura, com diferenças na alíquota e tempo de duração da redução salarial. Notem que aqui não estamos falando do efeito fiscal, que é pequeno, mas do exemplo positivo que isso representa.

A ideia é se solidarizar com o momento econômico do país, conforme foi mencionado pela própria premiê da Nova Zelândia, que foi exemplo em todos os aspectos no combate a COVID-19.

Mas há nenhuma ação louvável em terra brasilis?

Vale ressaltar, contudo, movimentos isolados que ocorreram no Brasil que devem ser comemorados. A Assembleia Legislativa de São Paulo (ALESP) aprovou um projeto que reduziu em 30% os salários dos deputados, além de outros cortes (como nas verbas de gabinete). A Câmara de vereadores de São Paulo adotou medida semelhante, cortando salários e benefícios, de forma temporária. O governador Eduardo Leite, do RS, cortou o próprio salário em 30% por três meses e pediu que todo seu secretariado também adotasse redução semelhante.

No âmbito federal, o congelamento dos salários do funcionalismo público pelos próximos 18 meses foi aprovado, depois de ameaças de veto a algumas categorias. Nos últimos dias, discutiu-se a redução de salários dos parlamentares para ter mais recursos no pagamento de novas parcelas do auxílio emergencial. Para o brasileiro médio, parece muito pequeno o esforço da elite do funcionalismo para se solidarizar com a sociedade, seja do executivo, legislativo ou judiciário.
Dizem que o exemplo vem de cima. As nossas lideranças políticas seguem na sina de perder oportunidades históricas para dar o exemplo e inspirar a sociedade. No fim das contas, vale aquela frase: “não se preocupe se seus filhos não estão te ouvindo; eles estão te vendo”.

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