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Bolsonaro na ONU: nada fora da expectativa

O discurso de abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas é, tradicionalmente (desde 1949), realizado por quem chefia o Executivo no Brasil. Desde a redemocratização, todos os nossos presidentes discursaram. O que aquele que prometeu “mudar isso daí” falou?

Em um discurso que não foge muito dos clichês sempre falados por ele, temos que a impressão deixada (agora globalmente) é a de que, em termos de política, nosso presidente regrediu ao status de candidato. Pode ser considerada uma regressão, por exemplo, em relação a postura na posse. Aliás, assim como naquele discurso, citou novamente que, sob seu comando, o Brasil deixava de estar “próximo do socialismo”.

A orientação do atual discurso é a de demonstrar que ações estão sendo tomadas em nosso país, em sentido ambiental e econômico, para que possamos nos destacar e seguir melhorando. Porém, há uma distância razoavelmente grande entre esse tipo de atuação que está sendo realizada e o discurso que foi feito.

Bolsonaro afirmou que a Amazônia está “praticamente intocada” e que, ao contrário do que sugeriu o presidente francês, pertence apenas ao nosso país. De fato, como já discutido em outro artigo aqui do blog, é preciso que não sejamos ingênuos em relação aos interesses econômicos envolvidos no espalhar de que a Amazônia está próxima de seu fim. Ainda assim, adotar um tom tão contrário não ajuda a passar essa mensagem também.

Sobre a economia, o presidente chamou de “irresponsáveis” as duas décadas que o precederam e procurou deixar claro que agora o ritmo econômico encontra-se em recuperação. Segue, desta maneira, o discurso do Ministro da Economia Paulo Guedes – apesar dos resultados práticos desta recuperação ainda estarem sensivelmente aquém do que tem sido falado pela equipe econômica desde os tempos de transição de governo até agora.

Quanto a geopolítica, Bolsonaro não poupou críticas à França (como já citado, em termos do debate ambiental que o país levantou), à Cuba (tendo chamado o programa Mais Médicos de “trabalho escravo”) e à Venezuela (citando os quatro milhões de venezuelanos que já deixaram o país rumo a outros países em decorrência da catástrofe político-social-econômica que por lá ocorre).

Aparentemente, tal qual teve sempre o costume de criticar em relação a posturas dos ocupantes anteriores da cadeira de presidente (especialmente os oriundos do PT), Bolsonaro aproveitou o discurso na ONU para demonstrar que, com sua chegada ao poder no Brasil, inaugurou-se uma nova era de prosperidade e crescimento que se diferencia em absolutamente tudo do que vinha ocorrendo até o dia 31 de dezembro de 2018 (ou mesmo 27 de agosto de 2018).

Diferentemente do que pode ser observado ao início do segundo mandato de Dilma Rousseff, agora estamos longe de ter um estelionato eleitoral. Todo o conjunto de posturas, ações e falas que estão ocorrendo hoje esteve presente na trajetória longilínea de Jair como membro do parlamento e mesmo durante a campanha presidencial do ano passado. Neste sentido, não há motivo para surpresa alguma em relação ao que foi dito. Não há espaço real para ficar chocado ou mesmo se perguntar os porquês de ter dito o que disse e do modo como o fez.

Porém, de uma coisa o presidente não poderá reclamar de agora em diante: sua imagem de ser mais beligerante do que agregador em termos internacionais (usando eufemismos enormes para não dizer “sua imagem de quem compra a briga e às vezes nem sabe o porquê”) acaba de ganhar um adendo importantíssimo, que envolve ele mesmo. O que até a manhã desta quarta-feira podia ser chamado de “perseguição internacional” ou “difusão de mentiras pela esquerda nacional” se transformou em uma confirmação, pelo menos no que se refere ao tom adotado.

É bastante questionável que uma postura diferente poderia ser adotada. Espera-se que um líder, aquele que ocupa o cargo máximo de representação de um país, saiba dialogar com outros líderes porque, no fim das contas, a integração pode gerar mais avanços (sociais, políticos e econômicos) do que o fechar-se em si.

Apesar dos acordos que têm sido assinados (nota-se que grande parte deles já era negociado muito tempo antes, como o celebrado Mercosul-UE, que ficou ironicamente os mesmos 20 anos “irresponsáveis” em discussão), a postura não sinaliza integração entre os países. Aliás, pequena correção: sinaliza, mas apenas com os países com os quais se têm predileção – outra grande crítica que era feita em relação aos governos petistas -, não necessariamente com quem seria possível ampliar a rede internacional de negócios de um país tão fechado quanto o nosso (e há muito tempo que é desse modo).

Em relação específica a este discurso, é possível depreender dois pontos. Em primeiro lugar, que haverá continuidade da política externa que se alinha especificamente a quem não representa o tal “socialismo” evocado a cada novo discurso. Em segundo, temos que os avanços sobre os meios de negociação real no país devem envolver outros membros da equipe (como os ministros) e não diretamente o presidente – não dá para descartar que isso sempre tenha sido a realidade, mas, tal qual como com a Dilma e suas frases sem muito nexo, trata-se de algo bastante explícito a quem queira ver.

Infelizmente a impressão internacional de Bolsonaro se confirma com uma fala dele mesmo. Tal qual na questão da Amazônia, discursos como esse reforçam a ideia de que ouviremos mais falar sobre questões alheias do que ao que realmente nos fará avançar em termos internacionais como país.

Entretanto, de novo, para que não haja dúvidas: não dá para reclamar de estelionato eleitoral – no máximo de ingenuidade de quem imaginou que o longamente parlamentar do baixo clero ganharia magicamente o decoro que nunca teve ao ser eleito presidente do país.

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