O Banco Central Europeu (BCE) anunciou, quinta-feira passada, que começaria a suspender seu programa de estímulos à economia, entrando lentamente em sintonia com os americanos do Federal Reserve. A decisão parecia firme a princípio, mas foi relativizada ontem, quando Mauro Draghi, presidente do BCE, disse que a compra maciça de ativos poderia ser retomada se necessário. O anúncio da semana passada ainda revelou que o BCE não irá elevar as taxas de juros tão cedo, o que parece ir de encontro ao objetivo da gradual desflexibilização monetária. Afinal de contas, o que quer o BCE? 

Quantitative Easing: uma grande interrogação

O objetivo declarado pelo BCE é a interrupção do quantitative easing (QE), processo iniciado com a crise financeira de 2008 e a consequente desaceleração econômica da zona do euro. O QE é uma política não convencional que foi implementada pelo BCE e por outros bancos centrais do mundo desenvolvido para estimular a economia quando as taxas de juros destes países foram a zero e deixaram de ser um instrumento eficaz. 

À época da crise, a política tradicional, que envolve a compra de títulos de maturidade curta, era incapaz de abaixar os juros nominais de curto prazo, que já estavam em seus limites inferiores. A estratégia, então, passou a ser comprar papéis de longo prazo, de modo a diminuir as taxas de juros a eles atreladas. O efeito prático destas operações, que configuram o QE, é reduzir a inclinação da curva de juros e, assim, reduzir a diferença (o spread) entre os juros pagos pelos papéis de curto prazo e os pagos por títulos de maturidade mais longa.

De setembro até o final de dezembro de 2018, o BCE irá reduzir as compras mensais de ativos pela metade, a 15 bilhões de euros. A partir daí, não devem ocorrer mais compras, a menos que alguns obstáculos se imponham com mais severidade ao crescimento europeu. As preocupações com as mazelas da Itália e com a guerra comercial fomentada pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, crescem a cada dia. Caso ocorra o pior cenário e as expectativas de inflação próxima à meta de 2% não se materializem, Draghi está disposto a retomar o programa de QE, conforme declarou ontem.

De todos os modos, o BCE descreveu a trajetória de encerramento do QE com mais precisão do que o banco central dos Estados Unidos quando este iniciou o processo em 2013. Esta maior clareza é vista com bons olhos pelo mercado. Também é positivo, do ponto de vista da previsibilidade, que haja forte intenção de acabar com o QE, ao menos temporariamente: ninguém sabe quais serão os efeitos de longo prazo desta inédita política. A inundação de euros na economia europeia poderia desembocar em desvalorização da moeda e, a partir daí, em inevitável pressão no nível de preços. 

Este é um cenário que parece pouco plausível diante da lenta recuperação da Europa, é claro, mas há outra razão para desconfiar da neutralidade do QE no longo prazo. O intenso programa de compras de ativos também teve o objetivo de estabilizar o sistema financeiro, e não apenas de controlar os níveis de emprego e preços. Isso significa que a pesada intervenção pode ter distorcido a alocação de recursos, favorecendo ativos mais tradicionais e inibindo a inovação destes instrumentos. Em última análise, o QE poderia estar atrasando mais ainda o crescimento. 

Juros: uma moderada certeza

O anúncio de quinta-feira, apesar de incluir um elemento claramente hawkish (como os economistas chamam posturas intolerantes à inflação), o fim do QE, foi moderado pela sinalização dovish (tolerante à inflação) de que a taxa de juros permanecerá em seu mínimo recorde, hoje -0.4%, pelo menos até a metade do ano que vem e pelo tempo que for preciso. Com isso, as expectativas do mercado foram frustradas – esperava-se que a taxa subisse em 0.1 ponto percentual no período – e o euro caiu mais de 1% frente ao dólar. 

A reação imediata do mercado foi negativa, mas o BCE acertou em sua temperança. As incertezas que rodeiam a economia europeia são muitas e se refletem nas próprias previsões do BCE: para o crescimento da zona do euro, prevê 2.1% e não mais 2.4%, e para a inflação, 1.7% no lugar de 1.4%. A previsão de inflação mais alta mesmo com crescimento mais baixo que o esperado anteriormente é resultado, principalmente, do aumento dos preços do petróleo. Já a redução das expectativas de avanço do PIB repercute a maior volatilidade esperada nos mercados globais.

Turbulência transatlântica

Dentro deste último fator, há o possivelmente maior risco geopolítico para o mercado europeu: o cada vez mais próximo rompimento com os Estados Unidos. As duas economias, além de divergirem em diversas questões estratégicas como o comprometimento com a OTAN, o acordo nuclear com o Irã e o acordo climático de Paris, estão em franco embate no terreno do comércio. O governo de Trump resolveu recentemente impor tarifas sobre o aço e o alumínio da União Europeia, e ainda ameaça criar barreiras à importação de automóveis europeus. 

O acirramento destas tensões pode ter efeitos muito graves, pois as relações entre as duas economias são muito mais significativas do que as respectivas ligações com a Ásia, por exemplo. Em 2017, para os EUA, 56% das receitas de filiais no exterior vieram da Europa, um número 4 vezes maior do que os ganhos na Ásia. No mesmo sentido, o estoque de investimentos europeus nos EUA foi mais de 4 vezes superior ao nível de investimentos na Ásia no mesmo período. Além do mais, os riscos de queda nas exportações de ambas as economias com o avanço do protecionismo, é enorme. 

O cenário fica ainda mais nebuloso se contarmos com a situação da Itália, que vive uma crise política e econômica de grandes proporções. O país não cresce há mais de uma década, luta para rolar uma dívida pública da ordem de 130% do PIB e caiu nas garras do populismo outra vez. A União Europeia agora tem o desafio de contornar a situação e ajudar a resgatar a economia italiana, importante para o dinamismo do bloco. 

Sendo assim, as decisões conciliadoras e equilibradas veiculadas por Draghi parecem acertadas. O BCE não está em cima do muro. Pelo contrário, está usando todas as ferramentas disponíveis para diminuir os efeitos da incerteza sobre o bloco europeu. 

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