Bancos: Nos EUA, a união faz a força?

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A concentração bancária nos EUA tem crescido desde a última crise. Segundo a revista britânica The Economist, embora existam 5.000 bancos no país, os top 3 controlam uma grande e crescente parcela do mercado. Após um período de “seca”, uma relevante fusão agitou o setor neste mês de fevereiro. Qual é a tendência no setor? Quais os motivos? Qual a relação com as recentes mudanças de regulação no setor? Aliás, isto pode estar relacionado à próxima crise que os EUA e/ou o resto do mundo enfrentarão?

Em 2007, pouco antes de o desespero tomar conta de Washington, diante de famosas instituições “grandes demais para falirem” em situação delicada — algo que exigiu medidas extremas e inusitadas por parte de políticos e FED —, os 3 maiores bancos do país detinham 20% dos depósitos. Hoje, estes têm 32%. Está claro que grandes bancos são “feitos”, e não “nascem” de repente. Parece óbvio, mas esta é a História do setor: em tempos de regulação mais frouxa, crescem mais, e tomam mais riscos (e vice-versa). Como exemplo desta relação, vale destacar o período de 1945 a 1975, durante o qual não houve praticamente crises bancárias em países desenvolvidos. Isto se deve, em grande parte, à regulação mais rígida que prevaleceu após a Grande Depressão.

O paralelo com as crises bancárias é óbvio. As crises não costumam ser “choques” independentes, sem vínculos com o contexto econômico. Dito de outra forma: as crises vão sendo geradas, aos poucos; e não aparecem de repente, como se viessem de um outro planeta. No jargão dos economistas, as crises são “endógenas”. Não são “exógenas”. Isto quer dizer que haveria espaço para agir, adotando políticas que minimizem a probabilidade disto acontecer. Aliás, entendidas até há pouco como sendo secundárias em grau de importância, as chamadas “políticas macroprudenciais” ganharam muita atenção nos últimos anos. Afinal, podem não só diminuir os estragos pós-crise; mas podem ajudar a evitá-los. O período de calmaria entre 1945 e 1975, por exemplo, é prova disto.

Nos últimos dias, o setor bancário entrou nos holofotes. Assuntos complexos como “regulação” e “crises”, portanto, também voltaram ao radar. O motivo? O período de “seca” quanto às grandes aquisições e fusões no setor chegou ao seu fim no último dia 7 de fevereiro. Os bancos BB&T e SunTrust anunciaram uma fusão nos EUA. A nova instituição, ainda sem nome, será considerada a sexta maior no varejo do país (tendo como base para a comparação o total de ativos das instituições). A notícia foi bem recebida pelo mercado, e as ações de ambas subiram após a notícia. Após resultados mistos dos principais bancos no último trimestre de 2018, o setor talvez possa contar com um impulso à frente, vindo destas transações.

À frente, é provável que mais aquisições e fusões aconteçam no setor. Há dois motivos básicos para isto. O primeiro diz respeito à regulação mais frouxa que desde maio de 2018 prevalece. Até então, somente instituições com mais de US$50 bilhões de ativos precisavam seguir certas regras mais rígidas do FED. Este limite passou para US$250 bilhões, e há uma proposta em discussão para subir este limite para US$700 bilhões. Se aprovada, facilitaria o crescimento — incluindo fusões e aquisições — dos bancos considerados “menores” que até aqui estavam mais restritos. O segundo motivo é a competição entre os grandes bancos e aqueles considerados “regionais”. Aliás, a mudança de regulação contribui exatamente para que estas instituições regionais sejam mais agressivas a partir de agora. Somada a esta questão, está a entrada de empresas que até há pouco eram consideradas exclusivamente do setor de “tecnologia”, e que tem migrado para o setor financeiro. Mas este é um assunto longo, para um outro texto.

A importância do setor bancário vai muito além do que se costuma imaginar. Uma crise financeira, se comparada com uma recessão “normal”, é muito mais custosa. Afinal, tem repercussões nos demais setores, que dependem de crédito para funcionar. É evidente que sem contrair riscos não há crescimento de longo prazo. E nem sempre tomar riscos acaba desencadeando crises financeiras. Ainda assim, o contrário parece ser verdadeiro: toda crise financeira é precedida de uma tomada excessiva de risco. É neste contexto que as mudanças de regulação dos bancos devem ser vistas: podem contribuir para fortalecer o setor, acelerar fusões e aquisições de instituições menores, dar um impulso à bolsa, mas podem ajudar a elevar a probabilidade de uma nova crise.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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