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Balanços nos EUA: o que esperar?

O mercado acionário dos EUA continua operando próximo às suas máximas históricas, mas até quando? Dito de outra forma: quando é que os preços dos ativos responderão às questões que incluem a deterioração do lucro das empresas, perspectivas de menor crescimento econômico ou até mesmo risco de recessão nos próximos 12 meses? Nesta semana, os bancos dão início às divulgações dos balanços das empresas nos EUA. O que esperam os analistas? Quais devem ser os maiores problemas das empresas? Do lado macro, o que dizer sobre o risco de recessão?

Para início de conversa, temos que Wall Street pode estar diante do seu terceiro trimestre consecutivo de queda nos lucros das empresas — um recorde negativo, se considerarmos os últimos três anos, por exemplo. Segundo a FactSet, é esperada uma queda de 4.1% no chamado “lucro por ação”, considerando as empresas do índice S&P 500 como um todo (após quedas de 0.3% e 0.4% nos dois primeiros trimestres do ano, respectivamente). Se isto acontecer, será a maior queda desde o início de 2016, quando o lucro por ação recuou expressivos 6.9%. Ou seja: não se esperam números muito brilhantes. No atual cenário, e por conta dos riscos em alta e da baixa previsibilidade, analistas também esperam que as empresas divulguem menos projeções e planos para o próximo ano fiscal.

Embora setores como o de saúde e real estate tendam a ser menos afetados neste momento, os de tecnologia e energia, por exemplo, devem sofrer mais. As tensões comerciais com a China (apesar das expectativas quanto a um acordo na última sexta-feira, dia 11, o noticiário voltou a ser mais negativo nesta segunda, dia 14) e a queda dos preços do petróleo, por exemplo, são alguns fatores que impactarão estes dois últimos setores, é claro. De forma mais abrangente, e considerando as empresas do S&P 500 como um todo, temos não só alguma pressão via aumentos salariais (um ponto ainda pouco relevante, mas que vale monitorar), mas, de forma especial, a recente valorização do dólar mundo afora — fatores que tendem a impactar os balanços de forma negativa. Registre-se: ao redor de 40% das vendas das empresas listadas no S&P 500 vem do exterior.

Por último, gostaria de voltar a tocar sobre o assunto “recessão”. Este risco, ainda presente no cenário internacional, deveria ser considerado por todos os investidores, inclusive no Brasil. Feito o alerta, vou àquilo que me chamou a atenção nos últimos dias: a inclinação das taxas de juros nos EUA já não é mais negativa. Dito de outra forma: a diferença entre os juros “longos” e os “curtos” voltou a ser positiva, como esperaríamos em tempos “normais” da economia (ou seja, a variável “juros de 10 anos – 2 anos” e “10 anos – 3 meses”, comumente utilizadas para esta análise, estão ambas positivas). No entanto, vale lembrar que, embora as coisas tenham voltado à normalidade, o alerta de recessão já foi dado. Na História recente, e considerando todas as recessões americanas desde a década de 1970, sempre que o diferencial de juros ficou negativo por ao menos 10 dias, houve uma recessão. Em média, ela se deu menos de 12 meses adiante. A tabela a seguir foi elaborada por Jim Bianco para a Bloomberg Opinion.

Neste contexto que descrevo, vejo ainda motivos para não esquecermos o risco de recessão em 2020. No mínimo, uma desaceleração econômica em países como os EUA. Além disso, parece-me cedo para comemorar um acordo comercial duradouro entre EUA e China, como o noticiário parecia apontar na última sexta-feira (11). Com as eleições no ano que vem, a estratégia óbvia de Trump é ter “inimigos” como os chineses ou até mesmo o próprio banco central, para culpá-los sobre os problemas do país. A temporada resultados corporativos, que começa nesta terça-feira (dia 15) com a divulgação de alguns bancos, será um bom termômetro para medirmos como estão reagindo as empresas a este cenário turbulento.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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