Até quando os juros subirão nos EUA?

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No último dia 26 de setembro, o banco central (BC) dos Estados Unidos decidiu elevar a taxa de juros. A decisão não surpreendeu aos economistas. Os chamados Fed Funds Rate estão agora em 2,00-2,25% ao ano. Incluindo este movimento, já são 8 as elevações de juros desde a última crise financeira (2007-2008). E agora? O que podemos esperar pela frente? Quais foram as novas sinalizações do BC dos EUA?

Tudo indica que ainda estamos num processo de ajuste. Ou seja: à frente, os juros americanos continuarão a subir.  A pergunta é: qual será o ritmo destas elevações? Diante de uma economia mais robusta e aquecida, os estímulos monetários do passado já não são necessários; é evidente. Mais do que isso: se forem mantidos, aquilo que era o “remédio” acabará se transformando numa “doença”. Jay Powell, o presidente do BC, sabe disso, e tem reforçado a perspectiva de gradual elevação dos juros.

Aos poucos, a comunicação começa a mudar. Desta vez, o comunicado oficial, pós-decisão do BC, já não afirma que “A política monetária permanece acomodatícia”. Mas isto não quer dizer que a política monetária agora se tornou contracionista, frisou Powell na sessão de perguntas e respostas, com jornalistas. Seja como for, é evidente que o que precisamos é nos desacostumar com o período de juros extremamente baixos. São juros mais altos nos EUA.

Os juros ainda subirão em 2018? Sim. O mais provável é que uma nova elevação de juros venha em dezembro (a reunião acontece nos dias 18 e 19). Se isto acontecer, terá sido a quarta deste ano, levando os juros para 2,25-2,50% — um cenário que no início do ano não era nada consensual, embora já fosse, desde março, um de nossos alertas sobre os juros americanos (de 25 em 25, acabariam subindo mais do que muitos imaginavam). Registre-se: hoje, apenas 4 dos 16 dirigentes do BC acreditam que os juros permanecerão estáveis. Os demais esperam uma nova elevação — a mesma “aposta” que a maioria dos investidores faz, neste momento.

E para os próximos anos? O que esperar das taxas de juros? Pela primeira vez, as projeções do BC incluíram o ano de 2021. Considerando a mediana das projeções dos dirigentes, o BC ainda espera 3 elevações de juros em 2019 (levando os Fed Funds Rate para 3,00-3,25%); e 1 em 2020 (para 3,00-3,25%). Para 2021, espera-se a manutenção deste nível. No “longo prazo”, os juros previstos permanecem ao redor de 3,00%.

Um “detalhe”: a composição dos dirigentes do BC, com o tempo, tem sido alterada. Desta vez, ao contrário das últimas projeções oficiais (feitas em junho), foi incluído o respeitado economista Richard Clarida, por exemplo; e deixou de fazer parte da instituição Bill Dudley, quem comandava o Fed de NY.

Por último, o que esperar do crescimento econômico e inflação nos EUA? O BC prevê um crescimento mais forte para 2018 e 2019, fruto de políticas do governo e condições financeiras favoráveis, em sua opinião. A sua projeção para o PIB de 2018 passou de 2,8% para 3,1%. A de 2019, de 2,4% para 2,5%. Para 2020, manteve a projeção inalterada, em 2,0%. A despeito do crescimento forte, e acima do “potencial” (hoje estimado em 1,8%), permanecem inalteradas as projeções de inflação, considerando o núcleo do índice PCE, para os próximos anos.

Todos estão felizes com as novidades? Certamente, não. Aliás, o próprio presidente Donald Trump tem se mostrado contrário às ações do BC americano. Em conferência em NY, disse: “Infelizmente, eles decidiram subir os juros um pouco, porque estamos fazendo as coisas muito bem. Eu não estou feliz com isso”. Mais: “Eu estou preocupado com o fato de que eles parecem gostar de subir juros”. Gostando, ou não, os juros estão subindo, e vão continuar a subir. Melhor se preparar para este cenário.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista-chefe da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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