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Até 2020, uma recessão?

O risco quanto à futura recessão econômica segue presente nos mercados internacionais. Mas, ainda assim, é verdade que nem todos os investidores estão tão preocupados com o assunto. Aliás, a despeito dos sinais que tenho ressaltado em textos anteriores aqui no blog, a verdade é que estamos num dos períodos mais longos da história americana sem crises econômicas, e de maior criação de empregos. Independentemente disto, volto a destacar o assunto, e faço a seguinte pergunta: estaríamos caminhando para uma nova recessão global? No curto prazo, qual evento deveríamos monitorar?

Num texto  publicado no último dia 14 de junho (sexta-feira) na revista Project Syndicate, o economista Nouriel Roubini tocou exatamente neste assunto: a probabilidade crescente de estarmos caminhando para uma recessão até o ano de 2020. Retomou um artigo publicado em setembro de 2018, no qual elencava 10 pontos que poderiam acabar sendo “gatilhos” para a próxima recessão. O interessante é que, segundo ele, 9 destes 10 pontos ainda estão presentes nos dias de hoje. A única mudança relevante de cenário (para “melhor”) diz respeito ao FED, o banco central dos EUA. Aliás, este foi exatamente o tema dos meus últimos 2 textos para o blog: “Powell: chega de paciência” e “O FED deveria satisfazê-los”. Ao destacar esta “reviravolta”, aproveitei para reforçar a percepção de que a instituição, sem espaço para combater crises no futuro, deveria hoje se antecipar às possíveis dificuldades – e tentar colocar a inflação mais próxima de sua meta de 2% — através de novos cortes de juros. Quanto deveria ser cortado? Aí já não há consenso, mas diria o obvio: dependerá do cenário dos próximos meses.

Entre os pontos mais preocupantes que Roubini destacou em seu último artigo, está a negociação comercial entre EUA e China. Embora ambos os líderes saibam que é do interesse deles evitar uma crise global, este seguem adotando uma retórica nacionalista. Neste contexto, é sim possível que Donald Trump e Xi Jinping se encontrem durante as reuniões do G-20, dias 28 e 29 de junho em Osaka (Japão), mas uma resolução do conflito não será nada rápida. No melhor dos casos, seria um mero recomeço das negociações. Assim, não parece ser razoável apostar num longo período de paz e tranquilidade na relação EUA-China. É muito mais provável que estejamos numa espécie de “início” destes desentendimentos, num momento em que a China começa a desafiar a liderança global americana. Este é, diga-se de passagem, um dos grandes receios do famoso investidor Ray Dalio, fundados da Bridgewater Associates. Em suma: a “guerra comercial” é, e tende a continuar sendo, um dos possíveis gatilhos para uma desaceleração econômica com impactos globais.

O problema é: como saber se a recessão está, de fato, se aproximando? Sabemos que há sinais emitidos pelos mercados (como os provenientes da curva de juros, e que abordei em outros textos), e que diversos riscos macroeconômicos estão ainda presentes, como elencou Roubini, por exemplo. Mas identificar o momento exato em que uma recessão se inicia, ou antecipar-se a ela é, no mínimo, muito desafiador. É neste contexto que trabalhos recentes de pesquisadores do think-tank Brookings Institution merecem destaque. Segundo estes, uma simples metodologia seria suficientemente poderosa para nos dizer quando é que uma recessão estaria começando. A “regra” é a seguinte: quando a média móvel de 3 meses da taxa de desemprego ficar acima da mínima dos últimos 12 meses, então, estaríamos em problemas. Este indicador sinalizou de forma correta todas as recessões nos últimos 50 anos, sem incorrer no “falso-positivo” nenhuma vez (dizer que não é recessão quando na verdade o é). Considerar indicadores como os da curva de juros em conjunto com dados de menor “frequência”, como este, parece ser uma boa ideia.

A economia global passa por um momento de especial fragilidade, e os receios quanto à próxima recessão tendem a continuar presentes. No curto prazo, a questão comercial envolvendo EUA e China seguirá sendo importante monitorar, e o encontro dos líderes neste final de mês pode ser um evento relevante, especialmente para os mercados. Não espere, no entanto, uma resolução como desfecho final. No médio prazo, é muito provável que a economia dos EUA diminua o seu ritmo e, além de indicadores de alta frequência, será preciso monitorar outros dados, como as variações do desemprego, à luz dos trabalhos que citei. Como curiosidade: neste momento, a média móvel de 3 meses do desemprego nos EUA está nas mínimas dos últimos 12 meses, sinalizando uma probabilidade desprezível de que a economia esteja em recessão. Isto, em algum momento, pode mudar.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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