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Às vésperas do FED, um choque de petróleo: e agora?

A semana começou com os mercados internacionais reagindo à menor oferta de petróleo da Arábia Saudita, após ataques à sua infraestrutura nos últimos dias. Independente de quem tenha sido o autor dos ataques (algo que os EUA estão investigando), a commodity iniciou a semana subindo aproximados 20%. Segundo as contas de alguns analistas, 5% da produção global ficou comprometida. Sem conseguir reverter tal redução na oferta global no curto prazo, a forte elevação dos preços do petróleo pode ter consequências das mais diversas sobre a economia global. Quais são estas? Em semana que conta com a reunião de política monetária do FED (o banco central dos EUA), o choque de petróleo será certamente considerado. Qual é o efeito mais provável deste choque sobre as decisões dos bancos centrais ao redor do mundo?

Às vésperas da reunião do FED desta semana (a sexta reunião de política monetária de 2019), este choque global na produção de petróleo aumenta as incertezas de diversos agentes de mercado. Não é por acaso que as bolsas internacionais abriram a semana em baixa na Europa, por exemplo. Ainda não se sabe quais serão as consequências econômicas, embora esteja claro que, quanto mais tempo durar a menor oferta, maiores serão os impactos. Isto, no entanto, não deve impedir que o FED reduza a taxa de juros outra vez, e anuncie nesta quarta-feira (18) que os Fed Funds Rate passarão de 2.25-2.00% para 2.00-1.75% ao ano. Aliás, em minha opinião, o choque vindo da Arábia Saudita deveria dar mais certeza ao FED sobre a sua decisão de cortar os juros. Terá sido a segunda redução dos juros em mais de uma década — algo que o mercado vinha precificando há algum tempo, e não será visto como uma surpresa. Mas se isto é dado como “certo” pelo mercado, como é que o choque do petróleo pode interferir nos planos do FED nos próximos meses?

Mais importante do que a decisão de cortar os juros, investidores estarão atentos às sinalizações do FED nesta quarta-feira (18). Como abordei em meu último texto, será importante analisar a disposição dos integrantes do FED para continuar com o ciclo de corte de juros adiante. Será um mero “ajuste”, como pretende Jay Powell (o presidente), ou haverá uma continuidade dos cortes nos juros em meio à deterioração da economia global e crescentes receios de uma recessão econômica nos EUA e outras importantes economias (como a Alemanha)? Em minha opinião, o choque na oferta do petróleo destes dias tende a aumentar tais riscos e, portanto, aumentar o viés “dovish” do FED (mais favorável à continuidade da redução dos juros). A instituição — e os investidores, de modo geral — há tempos não encaravam tamanho choque na produção de petróleo global. Mesmo sendo menos severo do que os choques dos anos de 1970, é mais um fator a considerar quando pensamos no cenário para os próximos meses. Aliás, será algo que não só o FED, mas outros tantos bancos centrais ao redor do mundo, acabarão considerando adiante.

Segundo reportagem da Bloomberg, a última ruptura comparável na oferta global de petróleo aconteceu nos anos 1990, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait. Vale lembrar que, naquela ocasião, tal invasão levou a uma queda das ações e a um aumento do risco de recessão no mundo – eventos que reforçam, hoje, a possibilidade de o FED ser, a partir de agora, ainda mais favorável à queda dos juros. Isto, é claro, se contrapõe à possibilidade que preços mais altos de petróleo elevem a inflação nos EUA, por exemplo – uma situação que restringiria a queda de juros e deveria fazer o FED ser mais cauteloso (menos favorável às quedas de juros). Ainda assim, nesta balança, ainda me parece mais provável que o FED, nesta quarta (18), sinalize que mais cortes podem vir adiante, mostrando-se muito atento aos acontecimentos globais e pronto para agir, caso necessário. Será também interessante analisar as projeções oficiais de atividade, inflação, desemprego e taxas de juros para os próximos anos.

Diante de uma elevada probabilidade de recessão nos EUA nos próximos 12 meses (37%, segundo cálculos do FED de NY), o choque de petróleo dos últimos dias é mais um fator global a ser considerado pelos bancos centrais. Nesta semana, os juros devem cair mais 25 pontos base nos EUA, e tudo indica que as taxas podem cair mais nos próximos meses. Na Europa, vale lembrar que as suas economias têm se tornado mais dependentes das importações de petróleo nos últimos anos. Isto, portanto, manterá – e reforçará – o viés mais “dovish” que o banco central europeu adotou nos últimos meses (e na semana passada, de modo particular). Muito próxima da recessão, será também importante acompanhar os próximos dados de atividade da Alemanha, e não podemos esquecer que, nesta quinta-feira (19), outros importantes bancos centrais (incluindo o do Japão, Reino Unido e Suíça) terão reunião de política monetária. Como reagirão estes aos eventos recentes? O choque vindo da Arábia Saudita é, claramente, mais um fator negativo na balança de riscos globais.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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