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América do Sul, um continente abençoado por Deus e instável por natureza

“Moro num país tropical abençoado por Deus e bonito por natureza (…)”. Pedindo licença poética (e também geográfica) ao cantor Jorge Ben Jor – autor da música que contém a frase citada anteriormente – é possível trocar o termo país, que originalmente faz alusão ao Brasil, por continente, de maneira a associar com a América do Sul.

A bênção divina sobre o continente sul americano, que se traduziu em belíssimas praias, florestas e cordilheiras, infelizmente parece não ter sido estendida até o campo da estabilidade política e econômica. Dado que desde o período colonial o continente é altamente propenso a ser cenário de frequentes crises econômicas, juntamente com violentas revoltas populares e golpes políticos orquestrados por líderes populistas.

Apesar do histórico conturbado, em alguns momentos do passado recente a América do Sul parecia ter encontrado o caminho para o desenvolvimento, com a maioria dos seus países mantendo taxas de inflação relativamente civilizadas, taxas de crescimento estáveis e regimes políticos respeitando as regras democráticas. Isso ocorreu de maneira fugaz no auge da chamada Onda Rosa e posteriormente estava se repetindo na chamada Onda Azul. Mas essa aparente estabilidade não se mostrou sustentada, com vários países sul americanos estando atualmente mergulhados – sem nenhum exagero – em um oceano de instabilidades com repercussões ainda incertas e nada animadoras.

Dos países que estão enfrentando graves crises, destacam-se a Bolívia, o Chile, o Equador e o Peru, que passam por enormes perturbações sociais cujos efeitos quase se desdobraram em quedas de governo. Ainda em menor grau, mas imersos sobre polarizações políticas e dificuldades econômicas, estão o Brasil e a Argentina. Os eventos que geraram todas essas situações para a América do Sul são diferentes, mas a questão central está concentrada no tripé formado pela incapacidade de reformar as instituições, de liberalizar a economia e de reduzir as desigualdades sociais.

Bolívia

A crise na Bolívia é eminentemente política, tendo sido gerada a partir da eleição presidencial ocorrida em outubro, em que Evo Morales saiu como vencedor. O grande problema está na forma como ocorreu a apuração dos votos, cercada por suspeitas de fraude, o que revoltou a oposição e boa parte da população, que não reconhecem o resultado eleitoral. Milhares de bolivianos tomaram as ruas e cidades como Santa Cruz de la Sierra entraram em greve protestando contra o resultado. Essa possível fraude eleitoral mostra a fragilidade institucional boliviana, evidenciada desde 2013, com a sanção da lei que permitiu a segunda reeleição de Morales.

Equador

No Equador, o estopim para a grave crise que se desdobrou em uma verdadeira rebelião pelo país e chegou a resultar na mudança da capital do país de Quito para Guayaquil, foi o corte no subsídio dos combustíveis. Essa medida, sancionada pelo presidente Lenín Moreno, faz parte de um pacote de medidas restritivas com o objetivo de reduzir os gastos públicos, adotadas como contrapartida a um empréstimo feito junto ao FMI. Isso desagradou grande parte da população equatoriana, mobilizando grupos relacionados com atividades de transporte, grupos de representação indígena e de estudantes.

Chile

A crise chilena talvez seja a mais emblemática dentre os países sul americanos. O Chile, que nas últimas décadas vem atingindo ótimos indicadores econômicos, apareceu dentro de uma espiral de protestos que paralisaram o país. O estopim para essa crise foi o aumento de 30 pesos na passagem do metrô, mas a principal motivação vai muito além, estando vinculada a demandas sociais que não foram atendidas (mesmo com todo o crescimento econômico). Questões envolvendo o regime de aposentadoria vigente, o elevado custo de vida e a desigualdade social têm sido evidenciadas a partir dos protestos.

Peru

Já a crise no Peru está de certo modo conectada com o Brasil, a partir de laços pouco republicanos que ligaram sucessivos governos peruanos com empreiteiras brasileiras. Esses casos de corrupção culminaram em uma grande crise política que se desdobrou numa verdadeira queda de braço entre o presidente Martín Vizcarra e o parlamento peruano, acarretando no fechamento do Congresso e no quase impeachment do presidente. O reflexo dessa instabilidade política tomou as ruas, com o acirramento no confronto entre manifestantes pró e contra Vizcarra.

Brasil e Argentina

No presente momento a situação da dupla Brasil e Argentina está sob controle, mas o cenário econômico e político destes países está muito longe de ser tranquilo. A Argentina está dividida entre a apreensão e a esperança na ascensão ao poder da chapa peronista/ kirchnerista formada por Alberto Fernández e Cristina Kirchner. Para minimamente controlar a crise econômica, a Argentina precisa passar por importantes reformas, mas o presidente eleito já planeja realizar o já comprovadamente malogrado congelamento de preços por 180 dias.

O caso do Brasil também envolve o sentimento de apreensão e esperança resultantes da última eleição, junto com a também urgente necessidade de realizar duras reformas econômicas. Apesar das inúmeras “caneladas” do presidente Jair Bolsonaro, seu governo vem articulando importantes reformas, tendo até já conseguido a aprovação da Reforma da Previdência. Mesmo assim, os desafios são gigantescos, o Brasil ainda possui mais de dez milhões de desempregados e a intensa polarização formada no cenário eleitoral instável de 2018 parece não ter se dissipado, em grande parte devido a algumas atitudes do próprio Bolsonaro.

Desse modo, a América do Sul parece estar ligada por graves crises, que mesmo sendo causadas por motivos aparentemente diferentes, guardam estreitas semelhanças. Sejam as medidas populistas, a fragilidade da validade eleitoral ou a manutenção das desigualdades sociais, todos esses motivos levam a crer que apesar de agraciado por Deus, a América do Sul é instável por natureza.

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