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Argentina: reestruturação da dívida

A atual situação econômica da argentina é, quiçá, uma das mais complicadas do mundo. A atividade econômica, mensurada pela evolução do PIB e produção industrial, por exemplo, registram, até o momento, contração anual de 1,7% e 13,3%, respectivamente. A inflação, que assola a vinda dos argentinos há anos, já ultrapassa os 50% ao ano. O mercado de trabalho, em estado anêmico, registra uma taxa de desemprego de 9,7%. As contas fiscais, observadas a partir da evolução do resultado primário e da dívida pública, demonstram constante deterioração. A dívida externa, isto é, aquela denominada em dólares, é de 51,78% e o BCRA central já quase não detém reservas internacionais para amortece-la.

 

O governo de Macri, ex-presidente, fez o que se pensava ser inimaginável quatro anos atrás: piorar a situação econômica do país. O grande desafio do novo governo de Fernández, conduzido por um ministro da economia treinado por Jospeh Sitglitz, Nobel de economia, é reverter este quadro extremamente desafiador. A equipe econômica reconhece que o primeiro grande passo a ser dado para garantir a volta do crescimento econômico e conter a dinâmica incontrolável da inflação é executar a reestruturação e eventual pagamento da dívida bilionária.

 

Isto, na opinião do ministro, não pode ser feito da forma convencionalmente conhecida. Por mais de 40 anos, instituições internacionais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional tem imposto restrições fiscais, isto é, medidas de austeridade, sobre nações fortemente endividadas na tentativa de tornar a dinâmica de endividamento mais sustentável. Este tipo de estratégia, porém, tem gerado resultados mistos.

 

Na Grécia, por exemplo, tais medidas ocasionaram uma contração de 25% do PIB; algo que tornou o pagamento da dividia uma possibilidade virtualmente inexistente.

 

O ministro, um crítico da austeridade extrema, no final do ano passado, implementou uma série de medidas mistas para conter um aprofundamento mais intenso do déficit primário e da recessão econômica – ou seja, medidas contracionistas e expansionistas. Ao mesmo tempo em que elevou impostos sobre exportações de soja, trigo, milho e compras no exterior, ampliou benefícios previdenciários e elevou os custos associados à demissão de funcionários. Adicionalmente, o governo anunciou uma bateria de medidas para fomentar o consumo.

 

Martín Guzmán, como é conhecido o ministro, já sinalizou que não pretende fazer uma afronta aos credores internacionais. Pelo contrário, tem constantemente demonstrado esforços na direção contrária. Junto com seu grupo de técnicos, divulgou um cronograma para a reestruturação da dívida externa. Se as expectativas se confirmarem, credores devem receber uma proposta na segunda semana de março. A pergunta que paira sobre ar, porém, é: será que a argentina conseguirá evitar mais default? As frustrações em torno desta questão já vêm se refletindo nas dinâmicas mercadológicas: tanto os yields dos títulos soberanos quanto o hiato entre o câmbio paralelo e oficial têm aumentado em tempos recentes.

 

Felizmente, na semana passada (04/02), resultados em torno das negociações envolvendo a dívida da província de Buenos Aires, capital do país, emitiram os sinais necessários. O governador da província, Axel Kicillof, anunciou que o governo pagará aos credores US$ 250 milhões num título que vence em 2021, e começará a reestrutura o estoque restante da dívida externa. O resultado positivo no front provincial parece indicar que o governo federal também consiga efetuar algo ao longo das mesmas linhas, uma vez que o governo provincial trabalhou em conjunto com o federal para atingir este acordo com os credores de BA.

 

Não obstante, constantes esforços devem continuar a ser implementados para que a crise de confiança, que se instalou de forma mais intensa desde a crise cambial de 2018, não continue se alastrando ao longo do tempo. Isto porque, caso a confiança não seja restaurada, o câmbio continuará se depreciando, alimentando, via repasse, ainda mais o processo inflacionário.

Conrado Magalhães Conrado Magalhães

Analista Político

Formado em ciências políticas pela universidade Marymount Manhattan College (NY-EUA), com pós-graduação em administração pelo Insper. Possui cinco anos de experiência no ramo de consultoria política como analista da Arko Advice e agora é o analista político da Guide Investimentos.

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