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Argentina: pós-eleições, o que esperar?

As eleições na Argentina são um dos destaques internacionais desta semana. O chapa Mauricio Macri-Miguel Ángel Pichetto (Juntos por el Cambio) obteve pouco mais de 40% dos votos neste último domingo (dia 27), contra 48% da chapa Alberto Fernández-Cristina Kirchner (Frente de Todos). Desta forma, o Kirchnerismo volta à presidência do país a partir do dia 10 de dezembro. O que podemos dizer sobre as eleições? O que deu “errado”? Quais os planos de Fernández? Ou melhor: quem são os possíveis nomes da “economia”? Mais: como encarar a derrota de Macri?

Não foi uma grande surpresa. Apesar da derrota nas urnas, Macri conseguiu melhorar a sua performance em relação às eleições prévias, as chamadas “PASO”, realizadas no último dia 11 de agosto. Naquele momento, comentei num texto que a sua derrota havia surpreendido a todos. Era difícil imaginar uma virada: eram pouco mais de 2 meses e Macri parecia abatido e sem reações inteligentes. De lá pra cá, no entanto, o ex-presidente do Boca se reanimou, fez campanha ao redor do país e mostrou uma disposição na reta final que era difícil de imaginar na segunda metade de agosto. Sobre a melhora frente às PASO: Macri subiu quase 8 pontos percentuais, ou mais de 2 milhões de votos, em termos absolutos. Por outro lado, Fernández permaneceu praticamente estagnado. A verdade é que a tão-esperada virada de Macri não veio, mas ficou claro que ele será a partir de agora o principal nome da oposição ao governo Fernández-Kirchner. A sua coalização política, diga-se de passagem, detém a maioria dos deputados.

O que deu “errado” nas eleições?

Macristas precisavam de um comparecimento maior às urnas e uma transferência de votos de algum dos outros 4 candidatos à presidência (aqui, sem contar Fernández, cujos votos dificilmente migrariam). Sobre o comparecimento: ficou na casa dos 80%, acima dos 76% registrados nas PASO, mas muito próximo do patamar registrado nas eleições gerais de 2015. Não chegou ao recorde de 85%, atingido em 1983, como muitos imaginavam. Sobre a transferência: parece ter havido alguma, embora insuficiente. Em especial, em algumas regiões do país, como em Salta, por exemplo, ficou clara a transferência de votos do terceiro colocado, Roberto Lavagna, para a chapa liderada por Macri. Mas, obviamente, foi pouco: o atual presidente teria precisado mais 2 milhões de votos para alcançar Fernández – esta cifra corresponde ao que conseguiram, somados, o terceiro e quarto colocados. Quando o assunto é geografia, vale registrar: o “centro” da Argentina votou mais em Macri, enquanto as regiões Sul e Norte ficaram com os Kirchneristas – uma repetição do que fora observado nas eleições de 2015.

“Seremos a Argentina que merecemos ser”, afirmou Fernández, após saber que seria o próximo presidente. Se por um lado a vitória de Macri em 2015 representava a interrupção de 14 anos dos Peronistas no poder (os Kirchner estão incluídos aqui), Fernández agora simboliza uma certa volta à Argentina pré-Macri. Houve uma série de erros de 2015 pra cá (que renderiam um texto sobre isto), e não estava claro como Macri conseguiria enfrentar a recessão e a inflação nas alturas, por exemplo. No entanto, ainda mais difícil é vislumbrar uma solução à moda Fernández-Kirchner, tendo como pano de fundo a situação deixada por Cristina em 2015. A dupla Fernández-Kirchner representará qual tipo de governo? Não há, ainda, muitas pistas. Neste momento de transição, foram designados por Fernández, para a área econômica, os seguintes nomes:  Matías Kulfas, Cecilia Todesca, Guillermo Nielsen e Miguel Pesce. Desta lista, sairão o ministro da economia e o presidente do banco central. Kulfas, conhecido por seu pensamento “peronista”, tende a assumir o primeiro: neste contexto, é razoável esperar intervencionismo, controle de capitais, etc.

E agora?

Não haverá “lua de mel” com o recém-eleito Fernández a despeito das reações “modestas” dos mercados neste pós-eleições (por enquanto). Explica-se, possivelmente, por um misto de “já era esperado” com medidas tomadas pelo banco central na véspera. Pelas recentes declarações de Fernández, haverá um pragmatismo maior neste início, mas é difícil imaginar que não cairemos no já conhecido intervencionismo econômico com o passar do tempo. A escolha de Kulfas, por exemplo, pode ser um indício nesta direção. A derrota de Macri, no entanto, não parece ter sido um desastre político: será o líder da oposição, a sua coalizão tem a maioria dos deputados e a sua vitória em províncias como Córdoba e Santa Fe, por exemplo, também lhe servirão para levar o governo à mesa das negociações. Fernández e Cristina não têm “carta branca” neste momento, e isto é bom. Para quem queria a continuidade de Macri, menos pior.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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