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Argentina: o debate entre Macri x Fernández

As eleições na Argentina seguem sendo um dos principais temas do cenário internacional. Hoje, quinta-feira (22), o jornal Clarín realizou um evento com os dois principais candidatos à presidência do país: de um lado, o atual presidente Mauricio Macri, de outro, Alberto Fernández, quem compõe a chapa com Cristina Kirchner, ex-presidente entre 2007 e 2015. Em sessões de perguntas e respostas separadas, feitas com jornalistas, foi uma boa oportunidade para entender mais sobre o cenário político-econômico atual. O que podemos dizer? Quais foram os destaques das falas de Macri e Fernández?

Começo pela fala de Fernández, respeitando a ordem em que o evento foi conduzido. O ex-membro dos governos “K” (Kirchner) e atual candidato à presidência foi logo questionado sobre como seria uma transição presidencial, caso eleito. Os jornalistas queriam saber se Fernández adotaria uma postura agressiva, relembrando o episódio em que Cristina se recusou a participar da transição com o seu sucessor, o recém-eleito Macri. Tentando diminuir tais incertezas, Fernández fez o possível para distanciar-se da imagem de Cristina quando lhe convinha. Em muitos momentos, no entanto, disse pensar igual à ex-presidente. A sua visão é aparentemente um pouco menos agressiva que a de Cristina, mas não menos intempestiva. Por vezes, Fernández me pareceu ter opiniões contraditórias, embora seja um bom orador. Quando questionado sobre economia, respondeu às vezes de forma dúbia e pouco transparente. De modo geral, se saiu bem das situações incômodas, e segue sendo, neste momento, favorito à Casa Rosada.

“Eu nunca neguei o diálogo”, afirmou Fernández. Nos últimos dias, diga-se de passagem, foram destaque no país as mensagens trocadas por Macri e o candidato — uma tentativa que o ainda presidente encontrou para tentar diminuir as reações negativas dos investidores às perspectivas de mudança de governo. Se a desconfiança dos mercados continuar a piorar, não está claro se isto poderá ser usado de forma positiva pela campanha de Macri. Os argentinos votaram com “raiva” nas últimas eleições, e é pela situação econômica que Fernández leva vantagem. “Este não é um momento dramático. É simplesmente o fim de um governo e o início de outro”, afirmou Fernández. Com drama ou sem drama, a questão é que o país tenta atravessar um rio de incertezas após as eleições chamadas de “PASO” (aqui, mais sobre este assunto).

Se a chapa Fernández-Kirchner for eleita, esta não será apenas uma transição de governos, permeada das incertezas inerentes a qualquer transição presidencial. Será uma derrota da guinada mais liberal que o país tentava desde 2015, e a possibilidade de que Fernández possa ser, no final das contas, um mero representante dos “K” (referência aos defensores do governo Kirchner). Os mais céticos de que Fernández se torne um fantoche de Cristina apontam para o papel extremamente limitado que o vice-presidente teve, historicamente, na Argentina recente. Os temerosos, por outro lado, lembram que foi o filho de Cristina, o também político, Máximo Kirchner, o primeiro a discursar pós-resultado das PASO, ao invés de Fernández ou até mesmo Cristina. Na dúvida, parece-me mais razoável continuar suspeitando que Fernández será mais Kirchner do que muitos acreditam, mesmo sabendo que suas ações possam se distanciar, com o tempo, daquilo que já conhecemos como sendo um governo “K”.

Economia

Com relação à economia, Fernández tentou afastar o risco de default da dívida. “Ninguém pode querer o default como saída. É muito danoso”, afirmou. Também disse ser uma pessoa sem “dogmas”. “Sou um pragmático”, adicionou. Comparou o papel do economista ao de um mecânico de carros: segundo ele, o mesmo problema do carburador às vezes exige ferramentas distintas. Disse não estar pensando em controle de capitais, mas sugeriu que alguma solução mais “engenhosa” poderia sair do papel. Ainda não definiu ministros, porém, quando os jornalistas insistiram, chegou a dizer que poderia trabalhar com o economista Martín Redrado, quem estava na plateia. Sobre a inflação, Fernández disse: “Se eu conseguir terminar o quarto ano de meu governo com uma inflação de um dígito, seria a pessoa mais feliz do mundo”. O problema inflacionário é um dos mais graves: previsões apontam que possa terminar 2019 acima de 50% — situação agravada pela recente depreciação do peso frente ao dólar desde os resultados das PASO.

Macri

A entrevista do presidente Mauricio Macri, por outro lado, começou um pouco mais descontraída, com os jornalistas falando sobre futebol. Mas demoraram poucos segundos para que a primeira pergunta, certeira, fosse feita: “é possível reverter o resultado das eleições? “. Aqui, é claro, o jornalista referia-se à diferença de 15 pontos entre a chapa do atual presidente e Fernández-Kirchner nas eleições PASO, no último domingo, 11 de agosto. Tentando mostrar confiança na reversão, Macri lembrou que também perdeu as PASO de 2015 por tamanha diferença contra a então presidente Cristina Kirchner. A sua fala é claramente menos agressiva que a do candidato Fernández; e faz o possível para reconhecer que ainda há muito a ser feito para que os argentinos possam ter coisas básicas, como uma geladeira cheia, churrascos de domingo e férias todo ano.

Quando o assunto é economia, os jornalistas também abordaram o assunto inflacionário: “Falhou o prognóstico? “. Sem muita saída, Macri respondeu dizendo que as suas metas foram, aos olhos de hoje, muito ambiciosas. Defendeu-se dizendo que a tendência era positiva antes das PASO. “Naquela segunda-feira [pós-PASO] a credibilidade foi perdida”, afirmou. Nesta situação delicada, Macri também perdeu o ministro da Economia Nicolás Dujovne, quem vinha sendo o principal articulador do acordo bilionário com o FMI. Entrou Hernán Lacunza, com o objetivo de estabilizar a economia até, ao menos, o próximo dia 10 de dezembro, quando começa o próximo mandato presidencial. Os jornalistas também perguntaram a Macri se haveria outras mudanças nos membros de seu governo, como forma de reagir à derrota nas PASO: “não haverá mais mudanças”, respondeu enfático, negando boatos de que Marcos Peña, seu braço-direito, seria afastado.

A situação político-econômica da Argentina é complicada. As declarações de Fernández continuarão a ser relevantes para mexer com os mercados. Por enquanto, Cristina aparece pouco na campanha de Fernández, para a infelicidade de Macri, quem adoraria tê-la como alvo. Fernández não é um rival político fácil. A sociedade argentina está dividida, e será difícil governar nos próximos anos, independente do vencedor. Muitos argentinos perderam os benefícios populistas que tinham nos governos “K”, estão insatisfeitos com o desempenho econômico e sem paciência para esperar mais. As melhoras na infraestrutura e na relação com outros países que Macri conseguiu nos últimos anos, por exemplo, parece-lhes pouco. “Presidente, as eleições se votam com o bolso”, lançou um jornalista no final da entrevista. A frase não saiu da minha cabeça. O evento do Clarín terminou assim.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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