Na última semana, uma conquista memorável foi atingida pela maçãzinha mais famosa do mundo. A Apple Inc., famosa por inovar em smartphones, computadores, tablets e até relógios, se tornou a primeira empresa americana a atingir o valor de mercado de 1 trilhão de dólares na bolsa americana. A primeira empresa do mundo a conseguir este feito anteriormente havia sido a chinesa PetroChina em 2007.

Impossível não despertar nossa curiosidade e admiração diante de um valor tão astronômico e icônico, equivalente a mais da metade do PIB brasileiro em 2017. Como uma única empresa, que é o grande legado do herói controverso Steve Jobs, consegue ser maior do que centenas de países?

Verdade seja dita, este patamar tinha de ser alcançado por alguém, e, cedo ou tarde, outras empresas que se beneficiam de estratégias similares, características e forças de mercado que ajudaram a Apple devem alcançá-la ou até superá-la. Foi assim com a primeira a valer 1 bilhão (United States Steel Corportation), recordes e limites existem para serem quebrados e ultrapassados. Isto de fato ocorrerá. Este é o ciclo: conquista de novos mercados, captura de efeitos de rede, em um piscar de olhos, o clube do trilhão logo se tornará a norma.

Da mesma maneira que alguém como Henry Ford criou a indústria automotiva moderna, alguém como Elon Musk, a despeito de seu comportamento polêmico ou por conta dele, provavelmente irá levar esta mesma indústria a uma nova lógica, a diferença se encontra na velocidade como crescerá o clube do trilhão: foram necessários quase 100 anos para a Ford alcançar o mesmo valor de mercado que a Tesla conseguiu em 14.

Voltando a Apple, este fenômeno do crescimento hiper acelerado da transformação digital é muito evidente. Depois de 42 anos, a empresa conseguiu atingir a marca do trilhão, no entanto, mais de 50% do crescimento da empresa se deu nos últimos 10, depois do lançamento de seu principal produto: o iPhone. Muito provavelmente as outras empresas a entrarem neste seleto clube do trilhão será alguma das FAANG (Amazon, Google ou Facebook), provando mais uma vez a velocidade de nossos dias. Todas estas empresas são em média 20 anos mais novas que a Apple. De fato, a Apple e qualquer outra empresa que provavelmente atingirá este valor de mercado tem um fator em comum: tecnologia.

Quais são os outros atributos de empresas candidatas ao clube do trilhão?

Em comum, os produtos e serviços destas empresas atingem o status de utilidade máxima e com frequência são utilizadas como um verbo ao invés de marca. Quem nunca “googlou” ou “deu um google” em alguma coisa? Além disso, estas empresas não se restringem ao ambiente tecnológico puro, muitas delas utilizam a tecnologia para promover uma verdadeira transformação digital, um processo muitas vezes inimaginável para empresas consideradas mais tradicionais que acabam sendo deixadas para trás. O clube do trilhão acaba por redefinir cada aspecto da experiência do cliente. Elas criam os chamados ecossistemas que conectam e contextualizam seus produtos e serviços a cada etapa do nosso dia a dia. Para um consumidor que utiliza dos seus serviços, são baixas as barreiras à entrada e elevadas as barreias à saída. É muito custoso pensar em trocar seu iPhone por um Android, em termos de dados, aplicativos e customizações em geral.

Mas existe mais por trás dos atributos tecnológicos, utilidade e qualidade dos produtos que fizeram da Apple a ser a primeira empresa trilhonária do Ocidente. Nos dias em que as grandes empresas de tecnologia estão enfrentando cobranças mais firmes de investidores, reguladores e usuários, o diferencial da Apple são, sem dúvida, a liderança e o alinhamento consistente para o maior valor da empresa: transformação digital com responsabilidade social. Sob a administração de Tim Cook isso ficou mais evidente. A empresa saiu do mero compromisso de responsabilidade social, similar a qualquer outra grande empresa para uma postura ativista em relação a uma gama de potenciais questões controversas, que poderiam causar prejuízos aos acionistas no curto prazo e, ao mesmo tempo, claramente piorariam a sustentação de longo prazo do negócio.

Um exemplo foram os relatos de que a empresa consentiria com as péssimas condições de trabalho de um de seus fornecedores na China. Enquanto a maioria das empresas utilizariam notas oficiais e a imprensa para empurrar o problema, a Apple optou por criar um relatório anual de responsabilidade social de seus principais fornecedores. Hoje em seu décimo segundo ano, um exemplo de como transformar notícias ruins em valor para companhia.

Os bons exemplos não param por aí. Enquanto Estados americanos como Indiana, Arkansas e Carolina do Norte tem regredido em políticas envolvendo direitos civis de homossexuais, Tim Cook, o primeiro CEO abertamente gay de uma companhia do porte da Apple, se posicionou fortemente contra os anacronismos destes Estados.

Em grande medida, o desempenho inovador e a valorização das ações da empresa podem ser atribuídos a esse tipo de postura, tanto quanto seus produtos altamente desejáveis de altíssima qualidade tecnológica e d​​e um design marcante e único. Isso se refletiu na carta de Tim Cook aos funcionários da Apple, festejando o marco do trilhão de dólares. Nele, o CEO minimiza o resultado econômico e destaca seu empenho diário e compromisso na manutenção da cultura e valores da empresa.

Vivemos em um período de um escândalo corporativo atrás do outro, a Apple, mesmo sendo imperfeita, se caracterizou como um ícone de boa governança e de como colocar seus valores em ação. De fato, valores morais importam e muito para a empresa americana e, no caso da Apple, boa governança corporativa e respeito a valores morais se convertem em valor financeiro.

Hugo Paixão Hugo Paixão

Analista de Research e Alocação

Bacharel em economia pela Universidade de Brasília e Planejador Financeiro CFP® certificado pela Planejar (Associação Brasileira de Planejadores Financeiros), atua há seis anos no mercado financeiro com passagens por instituições como Banco Modal e JGP Asset Management. Atualmente é analista de alocação da equipe técnica da Guide Investimentos.

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