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Ameaça americana: juros reais acima de 1%

Nesta terça, dia 18 de setembro, os juros dos títulos americanos de 10 anos atingiram o patamar de 3,05% ao ano. Aliás, os juros das Treasuries de 10 anos — como o papel é tradicionalmente chamado no mercado — chegaram a tocar os 3,07%. O papel não registrava um dia tão “ruim” desde o mês de fevereiro, quando houve uma expressiva elevação da volatilidade nos mercados internacionais. Mais uma vez, os chamados “juros longos” dos EUA voltam a ser uma ameaça. Mas qual é o motivo da recente elevação de juros por lá?

Dissecar movimentos como este não é tarefa fácil, mas vamos lá. A princípio, não parece ser o receio inflacionário. A expectativa de inflação, segundo cálculos do Fed de St. Louis, está ao redor de 2,10% (considerando o mesmo período de 10 anos). Em maio deste ano chegou a ficar ligeiramente acima de 2,15%. Ou seja, embora ligeiramente acima da meta do Fed, de 2,0%, não é esta variável, em minha opinião, a raiz do “problema”. É bem verdade que a inflação pode até acelerar adiante, mas não é isto o que está sendo precificado pelo mercado.

Considerando esta expectativa de inflação, temos que os juros reais de 10 anos oscilam pouco abaixo de 1,0%. Para ser mais preciso, estão por volta de 0,92%. Embora ainda seja um patamar baixo, considerando o período pré-crise (2007-2008), está praticamente na máxima desde 2010. Prever aquilo que pode acontecer caso os juros reais de 10 anos voltem a superar este patamar é difícil, mas tudo indica que, tudo mais constante, o dólar continua forte no curto prazo. Dito de outra forma: difícil vislumbrar um período muito favorável para as moedas dos países emergentes.

Voltemos às causas do aumento dos juros de 10 anos nos EUA. Movimentos internacionais, embora pudessem estar no centro deste movimento recente, também parecem ser mãos atores coadjuvantes. Afinal, a diferença entre os juros dos títulos americanos e os juros dos títulos de outros países desenvolvidos, como a própria Alemanha, também aumentou. Aliás, a diferença entre os juros dos títulos destes países nunca foi tão grande desde a adoção do euro.

Se o movimento recente de elevação dos juros nos EUA não parece estar relacionado às questões internacionais mais abrangentes, nem à expectativa de elevação de juros por parte do próprio Fed, como poderíamos explicá-lo?

A melhor resposta parece residir em questões “técnicas”. Por conta da recente diminuição de impostos de Donald Trump (de 35% para 21%), criou-se uma “distorção” no mercado, fazendo com que fundos de pensão antecipassem as suas compras de títulos dos próximos meses. Para ser mais preciso, estas instituições teriam vantagens tributárias caso o fizessem até o final da semana passada. Passada esta “pressão compradora”, proveniente parte destas instituições, os preços dos títulos têm recuado (consequentemente, os juros dos papéis subiram!).

E agora? Os juros nos EUA seguem em tendência de alta, mas isto não é grande novidade. Os países emergentes já sofrem, há algum tempo, as consequências. No curto prazo, a economia dos EUA tende a continuar aquecida, e o Fed deve manter o seu plano de voo (mais 2 elevações de juros até o final de 2018). Não parece provável, portanto, uma inversão desta tendência no curto prazo.

Independente do motivo por trás do aumento dos juros nos EUA — no período mais recente, questões “técnicas”, como comentei, parecem ter sido o “problema” —, vale monitorar como os papéis americanos evoluem. Estes são, afinal, uma referência internacional. Aliás, como reagirá o mercado — e os seus investimentos — se os juros reais de 10 anos nos EUA ultrapassarem o patamar de 1%?

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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