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Amazônia em chamas: atritos políticos e impactos econômicos

A Amazônia queima: uma pauta recente e dominante na mídia nacional e internacional. Os dados sobre o desmatamento causado pelas queimadas foram amplamente discutidos e diversas vezes questionados. Os “pulmões do mundo” (uma analogia cientificamente incorreta) estavam em apuros, disse o presidente francês, Emmanuel Macron. Jair Bolsonaro, seu par em terras tupiniquins, falou de ONGs e polemizou, como é de costume. Apesar do ruído envolvido nesse debate, uma coisa é certa: política ambiental importa e afeta diplomacia, comércio e negócios.

Estamos tratando de um evento significativo. Em termos territoriais, o fogo se estendeu por parte do Amazonas, Acre, Rondônia e Mato Grosso do Sul. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), aproximadamente 10.000 novos focos de incêndio foram identificados desde 15 de agosto. Isso desencadeou uma série de debates foram travados a respeito desses dados, mas tivemos também os desdobramentos econômicos e políticos.

Falando sobre diplomacia e comércio internacional, duas das figuras mais vocais sobre o tema foram Emmanuel Macron e Leo Varadkar (este, primeiro-ministro da Irlanda). Segundo eles, a desastrosa condução da política ambiental brasileira pode até mesmo comprometer o acordo comercial Mercosul-União Europeia. As obrigações ambientais do Brasil estão estipuladas, dentre outros lugares, no Acordo de Paris, mais um motivo de atrito diplomático no passado recente do Executivo.

Para além dos efeitos ambientais negativos observados, temos também impactos econômicos já em tramitação. Boicote de empresas, pressão dos grupos agro para adequação às melhores práticas diante de ameaças ao acordo com UE – trabalho de imagem que já vem sendo realizado há um bom tempo e pode ficar arranhado com a postura atual do governo – e desgaste diplomático internacional já são observados. Se por um lado estamos buscando fazer a lição de casa com as reformas, parece que a cortina de fumaça que se cria com polêmicas desnecessárias praticamente todos os dias acaba abafando os lentos avanços observados.

Como se não bastasse todo esse desgaste econômico, Jair Bolsonaro acabou travando uma batalha particular com Emmanuel Macron através da mídia. O francês, inclusive, capitaneou um esforço explícito pelas florestas brasileiras: o G7 (grupo composto por Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, Estados Unidos e União Europeia) se dispôs a fornecer £18 milhões para combater as queimadas. Contudo, o governo brasileiro rejeitou a oferta. O presidente Bolsonaro reafirmou sua posição diante do “rival” ao sinalizar que a proposta compromete a soberania nacional. Ao invés disso, preferiu enviar cerca de 40 mil soldados para as florestas, em busca dos criminosos responsáveis pelas queimadas.

Importante ressaltar que, como fato, há diversos ângulos. Não devem ser desconsiderados o fato de existir certa pressão na França por parte dos agricultores a respeito do recente acordo Mercosul-UE (e talvez essa causa seria um “empurrão a mais” para dizer que isso não seria boa ideia) e nem o ponto levantado por Macron sobre a internacionalização da Amazônia (o que, dentre muitos outros aspectos, feriria nossa soberania nacional de alguma maneira). Ah, e claro, como estamos falando de uma questão também política, há popularidade envolvida – e a impopularidade de Macron, que andava em alta, se reduziu após tal postura.

Se por um lado a aproximação do G7 foi rechaçada, os laços entre Brasil e alguns dos países latino americanos se estreitam: foi firmado um pacto pela proteção das florestas. Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Peru e Suriname compõem a aliança com o Brasil e propõem medidas educacionais e uma maior participação das comunidades indígenas na preservação da floresta amazônica.

Em suma, a questão toda poderia ter sido tratada com maior rigor e menor negação dos dados. É realmente lamentável que em pleno 2019 tenhamos um rechaçamento à ciência neste nível – “já que não mostra o que eu quero, discordo quebrarei o termômetro, dane-se a febre”. Teria sido muito mais direto colocar em ação os recursos disponíveis assim que fosse descoberto o aumento nas queimadas. Entretanto, não podemos negar os diversos interesses internacionais existentes. No fim das contas, uma questão em que as polêmicas dominaram mais do que as ações concretas.

Que se foque na Amazônia com o respeito que ela merece – e que se foque menos nos egos exaltados ou feridos nesse “salvamento dos pulmões do mundo”.

 

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