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Alemanha: perigos de recessão à vista

Perigos recessivos. O PIB da Alemanha contraiu 0.1% no segundo trimestre de 2019, na comparação com os primeiros três meses. Alguns analistas, no entanto, já projetam uma nova contração adiante, no terceiro trimestre — algo que colocaria o país em recessão técnica. Os alemães, por muito pouco, haviam se livrado desta situação no ano passado, mas as coisas não têm melhorado como se esperava, e os riscos continuam. Aliás, se considerarmos algumas análises um pouco mais pessimistas, como a do próprio banco Deutsche Bank, por exemplo, o país já parece estar em uma situação recessiva. Dito de forma simples: para quem costumava ser visto como a “locomotiva” da Europa, a Alemanha está certamente muito longe dos seus melhores dias. A Alemanha pode contaminar o resto da Zona do Euro? Como tem sido o comportamento destas economias nos últimos meses?

Um dos maiores problemas da Alemanha está no setor exportador, especialmente o de manufaturas — um setor que contrai há quatro trimestres consecutivos. A diminuição da demanda de países como China e Reino Unido, por exemplo, tem sido uma das causas. A confiança do setor, impactada pela famosa “guerra comercial” entre EUA-China, também tem sido apontada como um dos fatores para o desempenho medíocre. Vale registrar: no último dia 26 de agosto, segundo o índice IFO, a confiança dos negócios recuou para o seu menor nível desde a crise da dívida europeia de 2012. Os consumidores, em meio às perspectivas menos positivas no mercado de trabalho, também estão mais apreensivos, é claro.

A pergunta é: uma recessão na Alemanha acabará se espalhando para o resto da Zona do Euro? Nos últimos anos, alguns trabalhos têm mostrado que o ritmo econômico destes países tem se tornado mais “sincronizado”. Os dois piores momentos nos últimos 20 anos — considerando aqui o período da moeda-comum — foram a crise financeira global e a crise da dívida europeia (veja o gráfico a seguir, elaborado pela revista The Economist, mostrando tal “sincronia”). Mas não é óbvio que, hoje, sem um “choque” econômico claro e que atinja a todos os países, uma recessão alemã possa se espalhar pelos demais países do continente. Muitos analistas apontam, com razão, que nem todos estão tão expostos e são dependentes do comércio internacional como a Alemanha.

Por enquanto, o banco central europeu — embora tenha hoje um viés mais “expansionista”, como tenho comentado em textos recentes —, não parece estar especificamente preocupado com a situação alemã. Mas, ainda assim, os mercados esperam que na próxima reunião de política monetária do banco central europeu (dia 12 de setembro), sejam anunciadas medidas de estímulo, incluindo um corte de juros. Alguns, mais arrojados, esperam medidas mais agressivas, incluindo o retorno do programa de compra de títulos — algo que poderia dar um impulso à região como um todo. Além dos riscos internacionais, o ritmo econômico do bloco tem sido medíocre, e basta um pequeno “choque” para que as recessões se tornem uma realidade. No gráfico a seguir, perceba que o ritmo foi diminuindo ao longo de 2018 e está estagnado em 2019. Os índices de atividade (PMI), muito próximos de 50 pontos, mostram que estas economias estão no tênue limite entre aquilo que separa a “expansão” da “contração” econômica.

Os próximos capítulos são incertos, mas é inegável que a Alemanha – e a Zona do Euro – apresentam um ritmo econômico fraco. Após a perda de fôlego de 2018, os meses de 2019 confirmam que as economias estão frágeis, e um “choque” bastaria para levá-las à situação recessiva. Neste contexto, o banco central deve continuar muito atento, e o seu viés continuará a ser mais “expansionista”. A reunião de política monetária da próxima semana será um evento importante para monitorar.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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