Acostumado a demitir, Trump precisa contratar

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O presidente Donald Trump tem poder para influenciar o presente, mas também o futuro do país. Quando o assunto é “banco central”, qualquer decisão pode ter consequências de médio e longo prazo. Nas últimas semanas, a tão-apreciada “independência” do banco central foi, por muitos, colocada em risco. Trump, diante de duas vagas para serem preenchidas dentro do banco central (Fed), pode aumentar a pressão sobre a atual administração, interferir na política monetária do país, e já é motivo de discussão entre investidores. Afinal, quem são os indicados por Trump? Quais são os receios do mercado? De olho em 2020, esta situação delicada ainda pode se complicar mais.

Trump tem gerado preocupações entre investidores, e isto não é de hoje. Recentemente, no entanto, fez duas indicações para o Fed que, aos olhos de muitos, são no mínimo “questionáveis”. O presidente gostaria de ver Stephen Moore e Herman Cain dentro da instituição que decide a política monetária do país — nomes de aliados próximos que ainda precisarão de aprovação pelo Senado. Ainda assim, parece ser uma tentativa clara de preencher a instituição com pessoas que estão alinhadas às suas posições (incluindo juros mais baixos por mais tempo), e uma forma de pressionar Jerome Powell, o atual presidente do Fed. Há poucas semanas, Powell chegou a dizer que, apesar das críticas de Trump, o presidente não tem poder para demiti-lo, tentando esquivarse de perguntas dos jornalistas.

A notícia de que Cain, 73, era uma das possibilidades para preencher uma das vagas disponíveis do Fed circula ao menos desde janeiro. Cain já concorreu nas primárias do partido Republicano para presidente em 2012, mas acusações de assédio sexual, entre outras, acabaram com as suas aspirações. Embora tenha experiência no mercado privado (chegou a ser CEO de uma pizzaria chamada Godfather’s Pizza!) e tenha trabalhado no Fed de Kansas City entre os anos de 1992 e 1996, defendeu, ainda em 2012, a volta ao padrão ouro, por exemplo. Embora em dezembro de 2017 tenha defendido juros mais altos, disse há poucos meses estar preocupado com as consequências sobre a economia após as elevações de juros em 2018. Alinha-se, portanto, às atuais opiniões de Trump.

O segundo (e mais recente) cotado para preencher o Fed é Moore, 59, um duro crítico da atual administração de Powell. Aliás, num artigo no The Wall Street Journal, considerou que uma das razões pela atual desaceleração da economia dos EUA reside nas elevações de juros de 2018. Em especial, afirmou que a elevação no último mês de dezembro foi um “erro substancial”, e se vê como alguém que pode “ajudar” Powell a tomar melhores decisões no futuro. Próximo a Trump, Moore trabalhou na campanha presidencial do Republicano, é co-autor do livro “Trumponomics: Inside the America First Plan to Revive Our Economy”. Assim como Cain, Moore não é PhD em Economia — indicações que continuam a quebrar uma espécie de “tradição” dentro do Fed (aliás, Powell, que também foi escolhido por Trump, para suceder Janet Yellen, é outro que não tem PhD em Economia).

As reações a Cain e Moore não têm sido nada consensuais. Aliás, não faltam críticas às indicações de Trump, afirmando que são baseadas em preferências de curto prazo do atual presidente e que minam a imparcialidade do Fed. Embora pressões políticas não sejam algo essencialmente “novo”, a atual torna-se ainda maior, após seguidas e evidentes críticas de Trump à gestão de Powell. Se Cain e Moore assumirem postos no Fed, caberá a Powell o desafio de manter a credibilidade da instituição, e evitar que tais receios aumentem ainda mais. Aliás, a difícil situação de Powell fez muitos se lembrarem de Paul Volker, quem presidiu o Fed entre 1979 e 1987: após quatro indicações do presidente Reagan e lobbies de Washington para tornar a política monetária mais expansionista, precisou ameaçar com a sua demissão para conter tais pressões.

O receio do mercado, portanto, é o Fed perder a sua independência. Deixar que a política monetária seja influenciada pela Casa Branca seria incorrer num erro com proporções gigantescas. Estamos longe de uma situação crítica, mas é o bastante para lembramos deste perigo. Aliás, de olho nas eleições de 2020, as pressões de Trump sobre o Fed podem aumentar, especialmente se a economia nos voltar a acelerar como ele quer. Em tese, a sua promessa de fazer o país crescer a uma taxa de 4% ainda segue de pé. O Fed, no entanto, acredita a economia crescerá “meros” 2.1% neste ano, e desacelerará em 2020 e 2021. Assim, sem conseguir escolher o adversário dos Democratas nas eleições do ano que vem, Trump parece acreditar que pode, pressionando o Fed, fazer a economia voltar a crescer.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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