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Ações americanas em alta: a “culpa” é das empresas?

O mercado acionário dos Estados Unidos já sobe mais de 300% desde o início de março de 2009. Assim, o investidor que apostou no índice S&P 500, por exemplo, viu os seus recursos mais do que quadruplicarem. Apesar do expressivo bull-market, será que todo este desempenho é reflexo do otimismo dos investidores? Nos últimos meses cresceu o desconforto com um tipo de operação: a chamada “recompra de ações” por parte das empresas. Afinal, a “culpa” da alta das bolsas também é das empresas?

Neste período de alta das ações, que já dura mais de 9 anos, o montante de recursos que foi destinado aos fundos de renda fixa foi o dobro do que o destinado aos fundos de ações, por exemplo. Aliás, numa perspectiva histórica, é a primeira vez em mais de 3 décadas que isto é observado num período de alta da bolsa. Assim, embora possamos justificar a alta dos preços diante de uma economia que está cada vez mais aquecida, há “algo” a mais nisso tudo.

Não fossem as “recompras de ações“, o preço das ações poderia ser mais baixo. Nestes últimos anos, o montante de recompra de ações das empresas do S&P 500 já atinge aproximados — e expressivos! — US$4,5 trilhões. Isto representa quase 25% do valor total de mercado destas empresas. Mais: considerando as maiores, a média anual de recompras têm superado as emissões, por exemplo. Ou seja: houve uma diminuição da “oferta”, e isto ajuda a explicar, na conta de alguns analistas, um terço da alta destes ativos.

Assim como o pagamento de dividendos, a recompra de ações é uma forma de remunerar o acionista. No entanto, diante do crescimento destas operações, vários analistas têm sido mais críticos, e o receio aumentou. Sem entrar no mérito da questão, vale dizer que a recente reforma tributária de Donald Trump não contribuirá para interromper tais recompras. Pelo contrário. A menor tributação que recai sobre as empresas para repatriar recursos do exterior tende a exercer o efeito oposto: mantê-las elevadas no curto prazo, dado o maior montante de recursos disponíveis.

Após anos de elevada liquidez nos mercados internacionais, fruto das políticas dos bancos centrais, diversas empresas têm aderido às recompras, sem terem projetos interessantes para investirem. Ou seja: explicam-se, na maioria dos casos, por recursos em abundância, sem alocações para serem feitas. Da Berkshire Hathaway, de Warren Buffet, à Apple, de Tim Cook, os exemplos são bastante diversos.

Além de reduzir as ações em circulação (que já faria o preço da ação que “sobrar” no mercado subir), há potencialmente outro efeito desta operação, especialmente se a empresa emitir dívida para tal. Neste caso, beneficia-se, via de regra, da menor base sobre a qual incidirá a tributação adiante. Em tempos de juros baixos ao redor do mundo, o aumento do endividamento corporativo também têm sido apontando como um dos riscos à frente. Mas este já é outro assunto.

Em linhas gerais, portanto, não acredite que o otimismo dos investidores basta para explicar o tamanho bull-market americano dos últimos anos. A “culpa” também é das empresas. Aliás, também desconfie que a recente queda das ações – após um outubro turbulento – as tornou mais “baratas” do que estavam no final de 2017, por exemplo. Descontado o efeito da reforma tributária de Trump e das recompras de ações, o lucro por ação das empresas não estaria tão elevado.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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