A revolução do sistema: elas são “Big”, e elas são “Tech”

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Há aproximados 3 meses, o economista mexicano Agustín Carstens, a atual figura mais importante do Bank for International Settlements (BIS), fez um discurso que me chamou muito a atenção. Carstens comentou sobre as chamadas “Big Tech”. Estas empresas, além de serem uma ameaça para o sistema financeiro mais “tradicional”, são também um grande desafio para quem faz política pública e precisa regular e/ou supervisionar o sistema como um todo. Carstens tem motivos para estar preocupado. Mas quais são as perguntas pertinentes diante a “revolução” das “Big Tech”?

Antes de mais nada, é importante fazer uma distinção entre as “Big Tech” e as “Fintech”. As primeiras, aliás, também são por vezes chamadas de “Techfin”. Se por um lado as “Fintech” oferecem serviços financeiros com mais tecnologia, as “Big Tech” nasceram com outro foco: cresceram e saíram do setor de tecnologia, e estão migrando para o setor financeiro. A sua origem é outra, e é exatamente por isso que elas têm uma clara vantagem sobre as demais empresas: podem explorar a sua rede de clientes já existente, e a impressionante quantidade de dados em suas mãos. Este último aspecto, diga-se de passagem, é aquilo que está tirando o sono de muitas pessoas, incluindo o próprio Carstens.

O envolvimento das “Big Tech” no mercado financeiro começou com os meios de pagamentos, especialmente na China. Segundo dados do BIS, o consumo via meios de pagamento que envolvem as “Big Tech” representa hoje 16% do PIB do país. Nos EUA ou no Reino Unido, esta estatística corresponde a menos de 1% do respectivo PIB, aonde cartões de crédito ainda são predominantes. Ao comparar estes países, também é interessante destacar outro número: na China, o total de crédito per capita ofertado pelas “Fintech” é quase 3 vezes superior àquele concedido aos EUA ou ao Reino Unido. De qualquer ótica, seja das “Big Tech” ou das “Fintech”, a China lidera esta revolução. É, no entanto, uma questão de tempo para que outras economias também se deparem com tamanha mudança.

E quais são as perguntas importantes neste contexto? Com relação às “Big Tech”, Cartens destacou, especialmente, (I) os potenciais efeitos sobre o setor financeiro como um todo, e (II) ponderações sobre o modelo de negócios destas empresas. A verdade é que ainda não há respostas claras a estas perguntas, mas já é um bom ponto de partida. Sem condições de responde-las, Carterns abordou características destas empresas, que parecem ter pontos positivos e negativos aos olhos de quem analisa o setor como um todo.

Perguntas ainda sem respostas:

1 – Os efeitos sobre o setor financeiro: O envolvimento das “Big Tech” no mercado financeiro conduzirá a um setor mais competitivo e diversificado, ou levará a novas formas de concentração e poder de mercado?

2 – A vantagem competitiva das “Big Tech”: A expansão destas empresas tem sido impulsionada por ganhos de eficiência, como o melhor acesso à informação e menores custos de transação, ou deve-se à vantagem de poderem se esquivar da maior regulação que atinge as instituições mais “tradicionais” do setor?

Do lado positivo, as “Big Tech” não interagem com seus clientes através das tradicionais agências, por exemplo. Ao invés disso, já possuem uma base de dados própria e de terceiros, incluindo mídias sociais e qualquer tipo de “pegada digital” que é deixada para trás. A decisão sobre conceder crédito, ou não, é baseada em algoritmos e técnicas de machine learning. Quanto ao crédito às empresas, temos que as pequenas e médias, muitas vezes restritas e sem acesso aos grandes bancos, agora tem uma saída. As “Big Tech”, muitas vezes diante de uma base de dados que os bancos não possuem, conseguem incorporá-las ao tornar os seus projetos viáveis.

No entanto, há também possíveis efeitos negativos no processo de intermediação financeira que as “Big Tech” estão fazendo. Sem interação humana e tipicamente envolvendo transações de curto prazo, este tipo de crédito pode ser rapidamente cortado se as condições da economia e/ou daa empresas se deteriorarem. Além disso, está o claro desafio que as “Big Tech” impõe ao sistema financeiro como um todo. O funding destas empresas é diferente do funding dos bancos, e o modelo de originarão-distribuição ainda precisa ser melhor entendido pelos reguladores. Aliás, já há estudos que sugerem que o sistema financeiro baseado nos bancos “tradicionais” protege mais às empresas em tempos mais negativos, especialmente se estes bancos estão minimamente capitalizados.

Em suma: empresas “Big” e vindas do setor “Tech” são uma verdadeira revolução, e tudo indica que estas continuarão crescendo e se expandindo. Mas também tendem a enfrentar uma maior regulação à frente. Ainda é cedo para dizer o efeito que estas “Big Tech” terão no restante da economia. Diante da complexidade do assunto, Carstens reconheceu que a cooperação internacional será importante para permitir que estas empresas continuem a crescer sem impor maiores riscos de desestabilização ao sistema financeiro.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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