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A diferença entre o homem e o porco

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“O homem sabe o que quer. Ele sabe que é um homem. O porco, não. O porco é porco o tempo todo. Ele não sabe que é um porco. Ele é só um porco. Porco completamente porco. Essa é a diferença do homem pro porco”.

A frase acima foi dita por Paco, personagem de O Filme da Minha Vida, o recém-lançado filme brasileiro. Selton Mello, além de diretor, é quem dá vida a Paco, homem simples e que a princípio é periférico na trama. Baseado num livro, do chileno Antonio Skármeta, o filme tem potencial para se tornar um “clássico” do cinema brasileiro. Um “golaço”¹.

E daí? E meus investimentos com isso?

Bem, feita essa digressão, vamos ao que interessa. O link entre os investimentos e o filme ficará claro no final.

Dias mais positivos. Os mercados locais – ou seja, o Ibovespa, o real, a percepção de risco-país, os juros, etc. – têm se beneficiado da melhora do cenário internacional. Temos uma tendência a superestimar a importância do noticiário doméstico – a vitória de Temer na Câmara, as reformas que ganharam fôlego, a equipe econômica que segue forte, etc. –, mas a verdade é que, em nossa opinião, muito se deve ao bom momento dos mercados internacionais.

Uma ajudinha do exterior. O mundo parece crescer de forma saudável e, diga-se de passagem, tem acelerado². O PIB americano do 2º tri acelerou frente ao 1º, e a Europa segue surpreendendo positivamente. Até o Japão tem mostrado boas reações. E a China? A economia se mostra estável, cessou a saída de capitais, e o país está fora do topo das preocupações.

O novo normal. Os juros dos países desenvolvidos seguem baixíssimos, e os investidores, neste contexto, estão à procura de melhores oportunidades. Buscam ativos mais “arriscados”, com maiores retornos esperados. O risco é maior, é claro. Mais até aqui “tudo bem”. Afinal, o mundo, até aqui, vai bem. É assim que grande parte do mercado parece pensar. Mas, afinal, até quando este cenário continuará³?

Espíritos animais. Não foram poucos os economistas que, neste contexto de exuberância, se lembraram da expressão “animal spirits”. Tal expressão foi criada por Keynes, em 1936, referindo-se à “espontânea tendência à ação do que à inação” dos investidores⁴. Numa livre tradução ao português, seria algo como “espíritos animais”. Este termo é usado, normalmente, para fazer referência a algo que beira a irracionalidade.

Uma cautela que não é normal. Vozes mais céticas, por outro lado, tem começado a aparecer. Mas não é a norma, não é o “normal”. Howard Marks, renomado investidor, fez o seguinte alerta há algumas semanas⁵: “continue, porém, com cuidado”. Afinal, “o risco é elevado e os retornos esperados são baixos, e [isso] está levando investidores a tomar mais risco”.

Os argentinos são prova disso. Em junho, o país, que na sua História recente já deixou de pagar as suas obrigações por 8 vezes, voltou ao mercado. Em grande estilo: captou US$2,75 bi, em títulos de 100 anos, numa taxa anual de 8%. Isso mesmo: o título vence em 2117! Claro que o investidor pode “sair” antes disso, mas ainda é surpreendente. A demanda foi de quase US$10 bi, acredite se quiser.

Falemos a verdade. Nos últimos dias, o Ibovespa superou os 67 mil pontos, e o dólar se aproximou dos R$3,10. Michel Temer teve vitória importante na Câmara (embora tenha saído “caro” em termos fiscais e até políticos, vale dizer). Agora, é maior a probabilidade de Temer continuar até o final de 2018. E temos, além dele, um time competente chefiado por Meirelles na Fazenda e Ilan no banco central. E é inegável: a agenda de reformas tem ganhado forças nos últimos dias. Olhando deste ponto de vista, parece natural que a bolsa e o dólar tenham reagido de forma positiva. Mas é só isso?

Sério. Falemos a verdade. O cenário internacional segue muito favorável. Não fosse este, os mercados locais estariam em outro “lugar”, em nossa opinião. Basta lembrar que, apesar dos pontos acima, houve uma clara piora fiscal – algo que por si só, fosse outro contexto, já poderia ter impactado de forma negativa aos mercados locais.

Todos iguais. Olhando o acumulado do ano, temos que a percepção de risco-país⁶ recuou ao redor de 30%. Parece muito, e é. Acontece que países emergentes, semelhantes em rating de crédito, também tiveram a mesma redução de seu risco, aos olhos dos investidores. Isso mesmo: também caiu 30%, em média, a percepção de risco de países como África do Sul, Rússia, México, Turquia, Costa Rica, Colômbia e Sérvia.

Mas nem tanto. Como investidores, precisamos nos preparar para diferentes cenários. Não podemos nos deixar levar por “espíritos animais”. Assim como o Paco, do filme, precisamos lembrar que não somos qualquer animal. Sabemos o que queremos e, ao contrário do porco, sabemos que as coisas podem mudar, e podem terminar. “Continue, porém, com cuidado”. O alerta de Marks é muito bem-vindo.

Observações:
(1) Comentário de Eduardo Escorel, na revista Piauí (aqui);
(2) Um relatório recente que fala sobre isso é o do próprio FMI (aqui);
(3) Este alerta tínhamos feito num texto recente da Guide, chamado “Winter is coming…ou não?” (aqui);
(4) Texto interessante de Alan Greenspan, na Foreign Affairs de 2013, falando sobre isso, e sobre como os economistas estavam despreparados para a crise financeira americana (aqui);
(5) Memo escrito por ele, aos clientes da Oaktree Capital (aqui);
(6) Variável medida pelo Credit Default Swap (CDS) de 5 anos.
Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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