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A Curva de Juros Americana inverteu! E agora?

O mercado tem acompanhado com mais cuidado a curva de juros dos títulos públicos americanos e muito tem se falado sobre a inversão da curva e como este fenômeno tem sido um forte preditor para grandes recessões no passado. Mas afinal, o que efetivamente isso significa e porque é visto com maus olhares por investidores ao redor do mundo?

Em primeiro lugar, vale lembrar o que a curva representa. A curva de juros mostra a diferença de quanto investidores estão sendo compensados por empréstimos com prazos distintos, refletindo justamente as expetativas do mercado em torno do patamar em que a taxa de juros estará em períodos futuros. Geralmente, a curva apresenta inclinação positiva, uma vez que investidores demandam retorno maior para ter o seu capital travado por mais tempo, além da incerteza adicional que empréstimos de longo prazo implicam.

Seguindo esta lógica, títulos de curto prazo geram um retorno menor do que os de longo prazo durante a maior parte do tempo, as exceções sendo quando ocorrem o achatamento e a inversão da curva. No caso do achatamento da curva, o prêmio (também chamado de spread) pago em títulos de prazo mais longo caem para 0. Por exemplo, quando o rendimento de um título com prazo de 10 anos se iguala ao de um título com prazo de 2 anos. Em certos momentos, este “spread” se torna negativo – títulos mais longos passam a pagar menos do que os mais curtos – e é isso que chamamos de inversão da curva.

O que vem acontecendo desde o ano passado nos Estados Unidos é que a curva vem se achatando, principalmente pelos aumentos subsequentes da taxa de juros de curto prazo pelo Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Em 2018, o limite superior para taxa de juros subiu do patamar de 1,5% a/a em janeiro para 2,5% a/a em dezembro – movimento que promoveu esta redução de prêmio entre os títulos longos e curtos. Já em 2019, a preocupação crescente diante da probabilidade de uma forte desaceleração econômica alinhada a uma série de conflitos geopolíticos ao redor do mundo levou à inversão do prêmio entre o rendimento dos dois vencimentos mais acompanhados pelo mercado: o de 3 meses e o de 10 anos.

Isso ocorre porque as expectativas do mercado em relação às taxas futuras de juros são diretamente relacionadas ao que se espera da inflação, que por sua vez tem forte correlação com o nível de atividade da economia. A curva positivamente inclinada pode significar uma boa perspectiva para a economia, uma vez que atividade forte impulsiona expectativas em relação a inflação e, consequentemente, para as taxas de juros. Hoje nos EUA, verifica-se exatamente a situação oposta. Da mesma forma que uma curva positivamente inclinada sinaliza um horizonte positivo para a atividade, a inversão da curva é vista como presságio de períodos de recessão econômica.

Especificamente, a inversão do rendimento dos títulos do governo americano com vencimentos de 3 meses e 10 anos antecedeu todas as últimas grandes recessões do país e, recentemente, com o mercado ponderando riscos no plano comercial, além de dados fracos de grandes economias como a da China e a do bloco europeu, o prêmio entre esses títulos atingiram o patamar mais negativo desde 2007 (vide gráfico abaixo). Neste cenário, a curva dá uma clara sinalização de que investidores estão prezando mais pela segurança do que pelo retorno, fato que reflete justamente esse receio crescente em relação à sustentabilidade do crescimento econômico global, e é justamente por isso que temos acompanhando movimentos de sell-offs subsequentes nos mercados acionários ao longo deste mês.

Agora, tendo tudo isso em mente, é importante ressaltar que este movimento não passa de uma indicação, e que a inversão da curva de juros deu sinais falsos sobre possíveis recessões no passado.  Para alguns, as compras de títulos pelo Fed em seu programa de flexibilização quantitativa (Quantitative easing, em inglês) tem grande participação neste movimento, e a curva poderia não estar invertida se não fosse por essa medida. Por isso, o mercado continuará acompanhando não só se as inversões se sustentam em um período maior de tempo – o que tecnicamente pode elevar a probabilidade de recessão – mas também os desenvolvimentos dos conflitos geopolíticos e indicadores econômico das economias centrais. Em suma, é importante se atentar à mensagem passada pelo movimento de inversão da taxa de juros, mas ela deve ser recebida com parcimônia.

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