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519 anos do descobrimento do Brasil: paramos no tempo?

No dia 22 de abril comemoramos 519 anos do descobrimento¹ do Brasil, data que marca a chegada da frota comandada por Pedro Álvares Cabral no território denominado Ilha de Vera Cruz, que posteriormente foi renomeado para Brasil. Quando os portugueses chegaram nesse território altamente verde e povoado por diversas tribos indígenas, notaram que havia muito a se fazer para colonizar a área e começar a enviar riquezas para a Colônia.

Dessa forma, começaram a realizar extração de recursos naturais, como é o caso de Pau-Brasil, ouro e o início das primeiras lavouras (café e algodão). Em 2019, por sua vez, boa parte da matriz de exportação brasileira consiste em produtos de origem extrativa, como é o caso do aço, minério de ferro, petróleo pesado, além de soja e cana-de-açúcar. Muitas vezes exportamos o produto cru para depois importarmos o bem manufaturado, já no final da cadeia de produção².

É sabido também que os filhos dos portugueses muitas vezes não estudavam na Colônia, pois sequer havia escolas naquela localidade ou porque o ensino se restringia apenas ao método jesuítico, amplamente empregado nos índios que aqui residiam. Atualmente, o Brasil ocupa umas da últimas posições do PISA, uma iniciativa de avaliação comparada de estudantes do sétimo ano do ensino fundamental. De 70 países, estamos na vergonhosa posição 63, sendo que em matemática ocupamos a posição 65. Se a foto não é boa, o filme tampouco o é. Na medição de 2015 os índices alcançados pelos alunos foram piores do que o da edição anterior, a de 2012; só em matemática, a queda foi de 14 pontos, voltando praticamente ao nível de 2006.

Quanto ao início da exploração dos recursos na colônia, os portugueses encontraram um ambiente hostil (resistência dos índios) e de difícil acesso (áreas de mata fechada, rios e montanhas). Em 2019, talvez o termo ‘hostil’ ainda se enquadre bem quando o assunto é a capacidade de fazer negócios e produzir em terras brasileiras. Não é coincidência que estamos tão mal colocados no indicador Doing Business, que mede a facilidade de fazer negócios. A nossa atual 108a posição já é a melhor se comparado com levantamentos anteriores, mas ainda está muito aquém de países semelhantes ao nosso. Somos o país em que mais são gastas horas para o pagamento de impostos relacionados às empresas, devido ao emaranhado de leis e regras que mudam a cada momento. A morosidade para abertura e [principalmente] fechamento de empresas prejudica a iniciativa privada e consequentemente a economia do país. Infelizmente, ainda somos um país que cria dificuldades para vender facilidades.

Hostil também era a receptividade dos nativos indígenas, que lutaram para defender a terra dos invasores estrangeiros. Muitas mortes ocorreram nessas guerras locais, sendo que os nativos tiveram as maiores baixas, sendo rapidamente dominados pelos colonizadores. Tantos anos depois, observamos uma taxa de homicídios (30 p/ 100 mil habitantes) comparáveis a nações em guerra permanente . Só para se ter uma ideia, segundo o Atlas da Violência 2018, 553 mil pessoas foram assassinadas no país nos últimos 11 anos. O total de mortos é um pouco maior que o da Síria, país árabe que enfrenta sete anos de conflito armado e já contabiliza um saldo de 500 mil mortos.

Voltando aos nossos amigos portugueses, deve-se lembrar a propagação de doenças no Brasil Colônia, resultado da falta de cuidados básicos de saúde e higiene e da ausência total de coleta de esgotos e resíduos. Mais de quinhentos anos depois, o Brasil ainda possui taxas inacreditavelmente baixas de incidência de coleta de esgoto e tratamento de rejeitos. 51,9% dos brasileiros possuem coleta de esgoto, e apenas 45% tem seu esgoto tratado antes do despejo em rios e córregos. Dessa forma, mais de 100 milhões de pessoas que residem no Brasil utilizam medidas alternativas para lidar com os dejetos. Não é preciso nem ir muito longe na análise para demonstrar o efeito direto desse fato com a propagação de doenças e viroses na população afetada.

Há 519 anos descobria-se o Brasil, essa terra receptiva, de um povo único e de beleza sem igual. Mas como demoramos para definir nosso rumo! Afinal, ninguém vai fazer por nós o que nós mesmos não fazemos desde 1500.

 

¹Há uma certa polêmica sobre quem chegou primeiro ao Brasil em meados de 1500. Pinzón teria aportado antes em terras brasileiras: https://glo.bo/2IXKUtd

²Do ponto de vista puramente econômico, não haveria qualquer problema em participarmos do comércio global como grandes exportadores de commodities, como é o caso da Austrália e do Chile, por exemplo. O que ocorre é que o Brasil falha consistentemente em utilizar os benefícios da “benevolência da natureza” com os recursos naturais para o seu próprio desenvolvimento, tanto para a criação de uma indústria eficiente e competitiva, quanto para a utilização desses recursos para o bem público, como para saúde e educação.

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