1 trilhão de dólares: a realidade distorcida e Steve Jobs

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Na última quinta-feira a Apple atingiu a incrível marca de valor de US$ 1 trilhão de dólares. A marca era praticamente mitológica, e alguns pensavam que seria impossível de ser quebrada. A produtora do iPhone e dos Mac’s não é a empresa mais valiosa do mundo por acidente e sim pela distorção da realidade que se tornou cultural na empresa desde dos seus primeiros dias com Steve Jobs.

A dica cultural de hoje é para entendermos como a Apple, se tornou a Apple. E tudo foi graças ao visionário Steve Jobs. Para entender a Apple é preciso entender Jobs a fundo e como Walter Isaacson conseguiu essa proeza de entrar na mente e na vida do enigmático co-fundador da Apple. A dica de hoje é a biografia de Jobs, “Steve Jobs, uma biografia”. O livro foi feito com mais de 40 entrevistas com próprio Jobs e mais de 100 amigos, dentre eles ex-colegas da Apple e familiares.

Os mais novos só conhecem os iPhones, Ipads e Mac’s, mas a maçã começou seu sucesso lá atrás em 1977 quando lançou o Apple 2: seu primeiro computador de produção em massa. Um sucesso retumbante que colocou a empresa no mapa nos primórdios do mercado de computação pessoal. Logo depois veio o Macintosh, um computador incrivelmente a frente de seu tempo. Foi o primeiro a ter uma interface gráfica (assim como os nossos computadores hoje possuem) e não mais as linhas de comando, além de ter um mouse integrado.

A imensa quantidade de inovações trazidas ao público, no Mac, foram resultado direto da briga de Jobs com todos os engenheiros e executivos da Apple para que o computador que eles estavam projetando fosse o mais surpreendente possível. Jobs não queria fazer apenas um computador, ele queria fazer o melhor computador. Mas tamanha busca pela perfeição custou caro.

Apesar do primeiro Mac ser um supercomputador para a época, ele era caro e rapidamente os concorrentes (incluindo a Microsoft que copiou a interface gráfica), incorporaram as mesmas características em seus produtos que eram mais baratos.

A empresa começou a amargar resultados ruins e Jobs foi demitido, após o conselho decidir que Jobs estava causando problemas demais com seu temperamento.

Após a demissão de Jobs

Após a saída de Jobs, em 1985, a Apple lutou para sobreviver, lançou dezenas de produtos caros e ruins. De palm-pilots (avô dos smartphones) à impressoras, nenhum produto era bom o suficiente. O desempenho foi tão ruim que a empresa chegou a ser assombrada pela possibilidade de falência.

Enquanto a maçã lutava para sobreviver, Jobs continuou empreendendo: lançou a Pixar Filmes, que produziu o primeiro filme de animação 100% no computador, que foi Toy Story, um sucesso estrondoso. E a NexT, uma empresa de computadores que foi comprada pela Apple em 1996. Com a compra, Jobs retornou à Apple e rapidamente se tornaria o novo CEO da empresa.

A distorção da realidade

E aqui começa a mágica jornada de pura distorção da realidade. Jobs entrou numa Apple que tinha dezenas de produtos que não vendiam direito. A sua primeira medida foi acabar com todos essas tralhas e começar a fazer com que a empresa tivesse um foco claro em alguns poucos produtos. Naquele momento a Apple valia US$3 bilhões.

Jobs foi apresentado a um jovem designer, Jony Ive, que estava trabalhando num design de computador que muito lembrava o Mac original. Uma caixa única com teclado e mouse. Além do design integrado, ele era colorido em plástico semitransparente. Um contraste imenso com os computadores da época que eram caixas brancas ou pretas, com monitor separado da CPU. Jobs bancou o lançamento do novo Macintosh, que retomou a tradição da empresa de lançar produtos com design incrível.

O novo Mac recolocou a Apple no mapa e a nova linha de computadores não parou de avançar. Junto veio um laptop que seguia a mesma linha e o primeiro a trazer Wi-Fi: era possível se conectar à internet sem nenhum cabo.

Mais o produto definitivo veio com o Ipod, um tocador de mp3. Ele é gênesis da história do valor de US$1 trilhão que a empresa alcançou.

Ouvir música fora de casa sempre foi um martírio. Primeiro com os walkmans, que usavam fitas cassetes, e depois com os discmans, que usavam cd’s. Ambos eram pouco práticos, pois obrigavam o usuário a andarem com fitas e cds para trocarem. No começo dos anos 2000 explodiu o compartilhamento de músicas via internet e a possibilidade de tirar as músicas de um cd e ouvi-las em mp3 no computador.

Jobs queria um aparelho com enorme capacidade, onde milhares de músicas em mp3 pudessem ser armazenadas, que fosse bonito, leve e fácil de usar. Desse desejo, surgiu o Ipod. Além do aparelho, a empresa lançou um serviço de venda de músicas, que foi o primeiro a conseguir o apoio maciço das gravadoras, mudando completamente a relação de venda, pois era possível que o usuário comprasse apenas uma música e não o cd inteiro.

O Ipod vendeu aos milhões, virou uma verdadeira febre. Até que em 2007, o aparelho que vivia no bolso de todos, ganhou uma função adicional: a capacidade de fazer ligações. Além de incorporar o conceito de ser um celular com uma tela única, touchscreen e com apenas um botão na frente e a capacidade de navegar na internet. Nascia o Iphone.

O Iphone é o carro chefe da Apple, além de, assim como o Ipod, ser o pai do Ipad, outro sucesso. Algo em torno de 56% da receita da Apple vem apenas do celular, que já está na sua oitava geração. Por ano são vendidas mais de 200 milhões de unidades de Iphones em todo o mundo.

Steve Jobs faleceu em 2011, de câncer, mas foi o responsável por criar a cultura que trouxe a Apple onde ela está hoje. Sem ele não haveria o Ipod e sem o Ipod não haveria o Iphone ou Ipad. Jobs distorceu, inúmeras vezes, a realidade ao seu redor e fez com que a empresa abraçasse isso.

Se a Apple vale hoje 1 trilhão de dólares é porque Jobs teve uma força de vontade e inspiração da mesma ordem de grandeza que o valor de mercado da sua empresa.

 

 

 

 

 

Victor Cândido Victor Cândido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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